Caminhadas


Luiz Aguilar Partido NOVO-SP

 

Seu José gostava de andar. Nos tempos do rádio, suas caminhadas pela cidade eram coloridas, cheias de encontros e estórias. Garoto do lado espanhol do Brás, onde a primeira língua não era o português, as casas tinham suas portas sempre abertas e a criançada brincava na rua mesmo. O pequeno José levou muito tempo para aprender a andar, até que já quase aos dois anos de idade, uma tia o ensinou os primeiros passos.

As caminhadas de Seu José sempre foram cheias de aventuras e percalços na antiga cidade. Ruas sujas, buracos no asfalto e nas calçadas, postes fora de lugar e barreiras de todo tipo. O que mudou? São Paulo cresceu e se modernizou. Construímos novas avenidas, viadutos e ciclofaixas, de projetos muitas vezes discutíveis. A exemplo dos bons tempos, as calçadas continuam de difícil acesso e não convidam a seu uso mais intenso. A opção de andar a pé continua a demandar cuidados adicionais.

São Paulo é um lugar de encontros, cada cidadão com quem cruzamos na rua é uma oportunidade de troca de experiências e conhecimento, mas em geral estamos muito ocupados em manter o equilíbrio entre buracos, desníveis e dejetos, para olhar adiante. O olhar baixo para evitar topadas denota nossa humildade natural. Nossas calçadas não incentivam esses encontros. Precisamos buscá-los em outros espaços públicos, mas não está nas calçadas o primeiro passo da democracia urbana?

Podemos cuidar da cidade como cuidamos de nossas casas e esta deve ser uma das ocupações centrais de nossos vereadores. Como se diz no Japão, se cada um limpar a frente de sua casa, a cidade será um brinco. Melhor ainda, fazendo valer a lei onde cada um cuide da manutenção de sua calçada e a cidade cuida da limpeza e manutenção das ruas, poderemos finalmente ser incentivados ao uso democrático das calçadas, afinal todos nós somos pedestres ao largar nosso carro, ônibus ou metrô. Seria um convite a imitarmos o Seu José nas suas andanças colecionando cores, cheiros e sabores pela cidade.

Calçadas são espaços democráticos dos quais todo cidadão deve usufruir. Como no famoso ditado, o “progresso de um país também pode ser medido na proporção inversa do tamanho de sua constituição, mas direta na largura de suas calçadas”.

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Luiz V.V. Aguilar é engenheiro com MBA pela Fundação Dom Cabral, especialista em comércio internacional. Seus 15 anos como expatriado lhe conferem uma visão de economia e geopolítica a luz das liberdades individuais. É filiado NOVO de primeiro dia e membro do CONFIA-NOVO.

 

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