Os filiados confiam no Partido NOVO


Dennys Andrade, NOVO-SP

 

Quanto mais centralizado e institucionalizado é um partido político, maior é o peso da distribuição de incentivos seletivos (coletivos decisórios, etc) em detrimento da importância ideológica (Panebianco 1988). Para se sustentar como partido, o NOVO precisa definir-se: ou descentraliza ou delega incentivos.

O Partido dos Trabalhadores apresenta ainda hoje (e apesar de tudo) altíssimo grau de engajamento ideológico de filiados e militantes, possuindo estruturas burocráticas internas e dos cargos eletivos que sustentam essa maior participação: incentivos coletivos de identidade (participa-se pela identificação com a organização) e ideológicos (participa-se pela identificação com a “causa” do partido).

Foi o que ocorreu com o grande crescimento do PT, a partir de 2001. A corrente interna Campo Majoritário se estabeleceu, ampliando a cobertura geográfica do partido e aumentando exponencialmente o número de filiados. Distribuiu os chamados incentivos seletivos, empoderando os coletivos decisórios zonais/municipais em detrimento cada vez maior do conteúdo ideológico. O que “resultou na manutenção da linha de autoridade e de concepção mais pragmática e menos ideológica do partido” (Panebianco).

Duverger (1951) já sinalizava a importância dos incentivos organizativos para os eleitores (os agentes externos à organização), para os filiados partidários (aqueles que se limitam a pagar as quotas de filiação) e militantes (o núcleo duro do partido, aqueles com participação voluntária e contínua). Diferenciando os últimos entre  ideológicos/crentes e os carreiristas, uns dependentes de incentivos coletivos de identidade e os outros de incentivos seletivos materiais e/ou status, respectivamente.

O Partido NOVO poderia prevalecer como projeto político exclusivamente por seu aspecto ideológico purista. Há espaço histórico para tal, protagonismo e condições estabelecidas para consegui-lo. Todavia, para se apoiar no aspecto ideológico, precisaria sustentar-se por meio dos incentivos seletivos e coletivos e ter uma estrutura completamente descentralizada. Vide os exemplos do Podemos, na Espanha e da Rede Sustentabilidade, no Brasil. Não parece exatamente o caso do NOVO, excessivamente centralizador.

A solução pragmática para manter o seu rumo ideológico, o controle dirigente sobre as decisões partidárias nas instâncias menores (zonais e municipais) e ainda ampliar a base de filiados pelos chamados incentivos seletivos, passa pelo controle sobre as convenções.  Guarnieri (2011) pressupõe que “embora formalmente as convenções sejam controladas da base para o topo, na prática as lideranças têm mecanismos que lhes permitem controlar de fato o processo”.

O 3° Congresso das Direções Zonais da Cidade de São Paulo, realizado em 2015 pelo PT, é um exemplo clássico. Delegados de todas as 37 zonas distritais da cidade, de movimentos sociais e sindicais, de conselhos populares e da mídia realizaram formulações e debates políticos visando o posterior Congresso Nacional do partido. A extensiva “descentralização”, mesmo que limitada e nominal e a posição de “status”, assegurada pela presença dos grandes expoentes nacionais do partido, são exemplos crassos de incentivos.

O sucesso do projeto do NOVO e da longevidade ideológica da sua organização partidária não pode depender apenas dos seus dirigentes atuais (Lapalombara e Weiner, 1966) mas, de estruturas que mantenham funcionando essa relação de troca desiguais: relacional e assimétrico, porém recíproco. O partido deve encorajar o engajamento dos filiados e distribuir incentivos coletivos ou seletivos aos seus seguidores, pois o verdadeiro elemento de base de um partido é o bureau local da seção, que se reúne regularmente e assegura o funcionamento cotidiano da organização (Duverger, p. 62).

O Partido NOVO talvez tenha as ferramentas necessárias e o timing perfeito mas precisa realizar que a base do sucesso de um partido ideológico e de seus filiados é a confiança mútua.

*

Dennys Caesar de Andrade é geógrafo formado pela FFLCH-USP com extensão em Negócios e Comércio pela FGV. Atua na área de Inteligência de Mercado, Expansão e M&A do Grupo Carrefour e edita o Blog 30 Diários, onde escreve aos sábados. É um dos coordenadores do Grupo de Ação de Rua da ZO de São Paulo e modera a página dos filiados e simpatizantes do NOVO na ZO, no Facebook.

 

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