A “incipiente nebulosa sem forma” dará as cartas na próxima década


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Uma década atrás, Olavo de Carvalho escrevia “para o liberal, não existe nada mais sagrado que o direito de comprar e vender – inclusive a própria vida. Nem o Estado, nem a Igreja tem o direito de impedir de o sujeito de contratar um matador e dar cabo desta”, e o separava do conservador, para o qual “um cidadão é feito de valores e princípios explícitos e não tem o direito de contratar outro para matá-lo (muito menos para matar um terceiro), porque a vida é um dom sagrado que não pode ser negociado”.

Para o autor, que situa o nazismo e o fascismo como centro pois a direita conservadora seria a única que assumiria “o compromisso sagrado de jamais se acumpliciar com o socialismo”, o liberalismo – que “submete tudo aos critérios do mercado, inclusive os valores morais e humanitários” – seria como a água, assim como o conservadorismo – que “expande e fortalece a aplicação dos princípios morais e humanitários tradicionais por meio dos recursos formidáveis criados pela economia de mercado” – seria o óleo. Sendo ambos, em sua opinião, completamente heterogêneos, incompatíveis, imiscíveis.

Ao restringir os liberais ao estado puramente economicista (“os liberais são contra kit-gay apenas por que o Estado gasta recursos públicos, sem nenhuma objeção moral por parte deles”), o mesmo nega a possibilidade do indivíduo pró-mercado (mas não pró-empresas) de ser também contrário à uma política pública de ensino sexual em idade pré-escolar e de não compactuar com os fabianistas do PSDB.

Concorde-se ou não, o que conta é sempre o ponto de vista do observador.

Do mesmo modo, ao estudarmos a ideologia dos partidos brasileiros, o que conta é o ponto de vista de quem analisa. Do ponto de vista do PT, existem projetos socialistas mais esquerdistas (os revolucionários que não disfarçam a intenção de fuzilar os obstáculos) ou os mais centristas (idênticos na essência pela busca do comunismo porém, fazendo-o diplomaticamente, sem fuzilar ninguém). Nesta auto visão bidimensional, distorcida e polarizada (nós versus os divergentes), todo o espectro partidário atual, incluindo os socialistas “direitistas” são situados impiedosamente à sua Direita:

Espectro Político Brasileiro segundo a Esquerda

Espectro Político Brasileiro, segundo o PT

Para contornar a problemática do “ponto de vista do analista” e também fugir da análise simplista polarizada do “mais ou menos Estado”, é possível utilizar um diagrama vertical/horizontal, considerando apenas os resquícios diferenciais dos conteúdos pragmáticos partidários (que por ventura ainda existam).

Desta forma, é possível tentar orientar os partidos políticos e seus respectivos candidatos na última eleição geral de 2014, em acordo com as suas propostas declaradas. Observe no diagrama abaixo e seu detalhamento (segundo ranaud.com), na sequencia:

Espectro Político 2014

Espectro Político Brasil 2014 (anônimo)

02 - Espectro Politico

Detalhamento das posições ideológicas (fonte:ronaud.com)

O partido brasileiro que melhor representaria a vocação conservadora, com a proteção aos valores da cultura judaico-cristã, sua moral, ética e valores compartilhados por  Olavo, seria o Partido Social Cristão, o PSC do então candidato Pastor Everaldo.

Dentre as bandeiras do partido para o pleito presidencial de 2014 estavam: a luta contra o aborto, o resgate de valores familiares e a redução da maioridade penal – E, também – a  defesa de uma economia de livre-mercado, a partir do empreendedorismo individual com mínima intervenção estatal, plena concorrência, descentralização da gestão, da desburocratização e ampliação do livre mercado de operadoras de planos de saúde, a extinção de tributos que incidam no sistema de saúde e na aquisição de medicamentos e equipamentos para a área. Além da ampliação do acesso ao crédito, abolição de barreiras comerciais, corte de impostos, reforma trabalhista,  desoneração da folha de pagamento (…) fim do voto obrigatório, a eliminação da intervenção do governo brasileiro em assuntos de outros países e a busca do equilíbrio fiscal por meio do corte de gastos.

É possível unir a prática econômica liberal e os valores mais conservadores e se declarar um Liberal Ultraconservador, que não abre mão de “princípios morais e humanitários tradicionais” ao mesmo tempo em que prega o Estado mínimo e a economia liberal “pró-mercado”? O sucesso obtido nas urnas pelo pequeno partido indica que sim, o brasileiro acredita.

Indo além, seria possível a existência de um posicionamento individual Liberal Conservador, com os mesmos princípios morais, porém, mais flexíveis em termos humanitários (e independente da pecha puramente economicista): pró-direitos legais para homosexuais (não o casamento religioso), discussão de políticas de saúde públicas em relação ao aborto e às drogas, entre outros. Tudo isto, sem cair na malemolência esquerdista típica, de tentar impor uma tirania das minorias?

Entramos novamente na relação do “ponto de vista”.

Para Olavo de Carvalho, não.  Segundo o autor, os únicos liberais verdadeiros pertencem à direita conservadora. Qualquer outra defesa incisiva à economia de livre mercado que não defendesse também os valores tradicionais seria coisa de libertários. Seria também inadmissível qualquer prática liberal no sentido fusionista estadunidense ou do conservadorismo anglo-saxão, pois estas pregariam pela “uniformização econômica do planeta (…) e cuja implantação resulta pura e simplesmente na destruição completa do cristianismo e do judaísmo”. Qualquer tentativa de unir os aspectos conservadores tradicionalistas ao elemento libertário de defesa incisiva à economia de livre mercado, unindo esforços na oposição à tirania estatal e que lutasse pela permanência da ordem moral duradoura e atemporal “não presta”.

Para Reinaldo Azevedo, este pensamento da “extrema direita” não é querer “mais economia de mercado, mais liberdades civis, mais democracia constitucional — é querer acabar com essas três coisas em nome da ordem, da disciplina, da autoridade do Estado, às vezes em nome do anticomunismo, do combate à criminalidade ou de qualquer outro motivo. Não houve um só governo conhecido como de extrema direita que não fizesse exatamente isso”. Continua, “passar da direita à extrema direita é mudar de fins e valores, é renegar o que se acreditava e, em nome de alguma urgência real ou fictícia, empunhar a bandeira do que se odiava, se desprezava e se temia.” – conclui.

Espectro Político Moderno

Espectro Político Triangular de Hayek: Esquerda com fins e valores idênticos, diferenciados apenas pela intensidade – Direita e os extremos Libertário (Anarquista) e Conservador (Absolutista)

O Triangulo de Hayek descreve uma representação do sistema ideológico cuja base se alarga entre o poder absoluto e a absoluta falta de poder dentro de um sistema capitalista da Direita e se afunila para a Esquerda, onde a economia planificada preconiza completo controle do indivíduo. Segundo Azevedo, o “esquerdista torna-se extrema esquerda quando quer realizar, por meios revolucionários e violentos, o mesmo que a esquerda moderada busca fazer devagar e pacificamente: a expansão do controle estatal na economia, visando à debilitação e, no fim, à extinção da propriedade privada dos meios de produção.”

Parafraseando Felipe Altamir em sua defesa ao Fusionismo, os estadunidenses da Direita uniram elementos libertários e do espírito de prudência e repúdio à utopias, como uma defesa ferrenha ao empreendedorismo, aos valores da livre iniciativa, ao mercado irrestrito e muitas vezes ao individualismo de Ayn Rand. Nem por isto, adentraram nas incertezas das formas transacionais de governo, como os libertários ou anarquistas (vide abaixo).

Political Spectrum

Há pontos e aspectos em comum entre libertários e conservadores, e ambas ideias podem sim serem fusionadas, ensejando uma força política que vá de contraponto ao “coletivismo e o utopismo cego de muitos burocratas e líderes mal intencionados”.

Outra linha de pensamento leva autores como Paulo Germano a associar o termo liberal ou as ideias liberais à defesa da propriedade privada e à “livre associação”. Dentre de um contexto maior, não está incorreto. Continua porém, que o indivíduo é livre para se associar a outrem e fazer o que quiser com a sua mais importante propriedade, seu próprio corpo, portanto, “o liberal que evitar defender o casamento gay viveria em absoluta contradição”, e que o termo Liberal Conservador, defendido por pessoas como Marcel van Hattem seria uma incongruência, algo como um “vegano carnívoro ou um tricolor colorado.”

Voltamos assim ao aspecto inicial destas linhas porém, no sentido oposto: quem é liberal em termos econômicos deveria ser obrigatoriamente, liberal em termos sociais? Seria então um liberal-liberal? (sic) Mas uma pessoa dita liberal-liberal, no Brasil, não seria de esquerda? Então eu sou a favor da esquerda e não sabia?

Sem fazer merchandising mas já fazendo: Não senhor comuna! É possível apoiar programas sociais de emergência, a liberdade e o reconhecimento legal da união civil homoafetiva e também ter uma visão completamente pró-livre mercado (não pró empresas), privatizante e de estado mínimo mas que, ao mesmo tempo, conserve as  instituições republicanas sólidas e independentes. Se nem Olavo nem a Esquerda permitem que você assim o pense é porque o fazem em benefício mútuo, tal qual o fazem Jair Bolsonaro e Jean Wyllys e sua geração de mídia. Acontece que a definição ideológica do indivíduo não pertence aos extremos, pertence ao ponto de vista do próprio.

Associar o termo Conservador à extrema-direita faz parte do ganha pão de ambos. Exatamente por este motivo, alguém que se defina liberal-liberal (sic) ainda tem tanto receio de se posicionar à direita. E a extrema direita faz questão de o posicionar à Esquerda. E muita gente cai nessa.

“Não votei no PT, mas se quem defende causas humanitárias e direitos civis é tachado de petista, não me resta outra opção senão aceitar essa pecha”. Gregório Duvivier foi um. Ao colocar os idiotas que defendem a intervenção militar e os extremistas que não sabem se comportar no mesmo balaio, extinguiu automaticamente todas as opções à direita. Deste modo, a esquerda transforma a direita em fascista (por natureza) e ao humanista em petralha, por falta de escolha.

No Brasil da Nova República, pós ditadura, os progressistas definiram e associaram o termo Conservador à bancada  religiosa / moralista / nacionalista e nele o abrigou, como “sinônimos” de uma Direita uníssona (fictícia). Talvez pela imaturidade democrática, puderam incultar na opinião pública a noção de que ser Conservador é andar de mãos dadas com Pastor Everaldo e Jair Bolsonaro e nunca poder abrigar opiniões adjetas libertárias.

Nas principais democracias modernas,  o termo Conservador é utilizado para definir alguém favorável a “conservar” as instituições – o Judiciário, o Legislativo e o Executivo – e suas respectivas independências e a preservar a cultura e a secularidade, em “contrapartida” àqueles que desejam a expansão do controle estatal na economia e na sociedade, a sua debilitação e, no fim, à extinção da propriedade privada dos meios de produção e coletivização cultural (globalismo/multiculturalismo), ou seja, toda a esquerda.

O brasileiro é um conservador por natureza e um libertário por experiência. Gosta das novelas de época e despreza ver em sua casa, com seus filhos, um beijo gay na televisão, ainda que não se importe com o que os outros façam ou deixem de fazer em suas respectivas residências. É uma amálgama entre a visão moderada do Estado Social, de Margaret Thatcher e a flexibilidade ideológica do “fusionismo” norte-americano de  Ronald Reagan.

Com maior ou menor grau de abertura em relação às liberdades individuais, aprendeu na marra a ser veementemente contra qualquer tipo de autoritarismo. Com a redução da extrema pobreza e a comida na mesa, passou a priorizar também outras demandas, como combate à corrupção, o que inclui o capitalismo de compadrio fabianista do PT e PSDB.

É possível fazer uma analogia entre a crise atual e o período recessivo que antecedeu o momento liberal conservador na Inglaterra o nos EUA, na década de 80/90, comparando-o ao atual quadro ideológico brasileiro. Se incluirmos ainda os partidos direitistas não oficializados do Líber (libertários) e do Piratas (democracia líquida, quase anarquista), chegamos à uma representação próxima do que seria uma concepção mais completa e mais próxima da possível realidade ideológica brasileira para a próxima década:

Political Spectrum USA to BRA

Tal qual afirmou o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em janeiro de 2015: “Não existe direita organizada no espectro partidário brasileiro”. Não por outra, é tamanha a importância do surgimento do liberalismo e da desestigmatização da Direita. Aquilo que Olavo chamou (em 2007) pejorativamente de “incipiente nebulosa sem forma, unindo liberais e conservadores em uma gostosa promiscuidade, fundidos na ojeriza comum ao estatismo esquerdista”.

Cabe aos partidos liberais (reais ou pragmáticos), através de seu conteúdo programático, dar real significado ao termo Direita Liberal Conservadora e sua versão de “fusionismo” em terras tupiniquins. Não pregamos mais “ordem, disciplina e autoridade do Estado” ou “mais Estado e tirania das minorias”, como os conservadores ou progressistas.

Desejamos efusivamente a economia de livre mercado, a não intromissão do Estado na vida privada (como liberais, não como libertários ou anárquicos) e também a conservação das instituições republicanas, da cultura e da secularidade, assim como dos entes independentes que as sustentam.

Isto é ser um Liberal Conservador

Pesquisa em andamento no grupo Direita Liberal do Facebook mostra que a maioria da Direita pensa de forma conservadora (36%), equilibrando demandas libertárias com fortes e independentes instituições republicanas. Bem longe da corrente ultraconservadora (5,6%) de Olavo ou dos minarquistas (7,8%), diferenciando-se da radicalidade dos libertários (20,2%) de Rafael Hide e sendo ainda mais representativa que o laissez-faire do liberalismo clássico  (24,5%).

Pesquisa em andamento no Grupo Direita Liberal (Facebook)

Pesquisa em andamento no Grupo Direita Liberal (Facebook)

A direita brasileira precisa se modernizar e tudo indica, está no caminho certo. Precisa se libertar da subserviência pragmática rotuladora da esquerda e da falácia exclusivista e do sofisma totalitário da extrema direita. É chegada a hora de tomar as rédeas.

Dennys Caesar de Andrade é geógrafo formado pela FFLCH-USP com extensão em Negócios e Comércio pela FGV. Atua na área de Inteligência de Mercado, Expansão e M&A do Grupo Carrefour.

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3 comentários sobre “A “incipiente nebulosa sem forma” dará as cartas na próxima década

  1. Dennys, muito oportuno e abrangente o artigo, com a ressalva de que vc diz “fugir da análise simplista polarizada do ‘mais ou menos Estado'”, porém adota exatamente essa análise (que não considero simplista, mas eficaz) nos quadros à mão, na sequência do texto: o *political spectrum* é uma régua que vai no estado total ao zero estado e passa o recado com clareza. Foi aliás de onde parti em junho de 2014 para desenhar a matriz de poder que originou uma conversa no Fb. Mais desse comentário ali, inclusive uma consideração adicional: o “triângulo político” confunde mais do que explica. Estou logando com o Fb, te incluo na conversa, se quiser. abs!

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