O que a sacolinha do mercado tem a ver com a sua restituição do IR?


Dennys Andrade, NOVO-SP

 

A “Lei das Sacolinhas”, decretada em 05 de abril de 2015 pelo Prefeito Fernando Haddad, reduziu em 70% o consumo destas na capital paulista, segundo a APAS (Associação Paulista de Supermercados).

Dentre os fatores responsáveis por esta redução está a padronização do modelo, de maior volume que a antiga, a redução do número de itens por ticket em virtude da crise e, principalmente, na diminuição do uso abusivo. O valor unitário, que antes era diluído no preço dos produtos, agora é cobrado entre R$0,08 e R$0,10 por cada unidade utilizada.

Consciente do valor unitário que paga por sua sacolinha, o consumidor evita pegar mais unidades do que necessita e até acostumou-se a levar a antiga sacola de pano que a vovó utilizava na feira. Outra opção é adquir uma daquelas sacolas reutilizáveis “fashion” que os próprios mercados põem à venda para os ambientalmente adequados. Fit yourself IN and be happy!

O cerne da prosopopeia é, porque ficamos todos preocupamos em poupar centavos na hora de pegar sacolinhas plásticas e, ao mesmo tempo, adoramos fazer o Imposto de Renda, mesmo sabendo que o governo depena 1/3 de todo o seu salário? Qual o motivo da alegria ao saber que o governo lhe devolverá uma graninha meses depois? Parece piada pronta mas não é.

Semelhante analogia é possível ao relacionar a pessoa que é louca por moedinhas, que adora colocá-las no cofrinho mas, na hora de vender um automóvel ou um imóvel, não se importa em baixar R$500 reais no preço do seu veículo ou R$2.000,00 no valor de sua casa. Um nada, diante do todo, dirá. Sabe quantas moedas ele terá que juntar para alcançar esse “nada”? O cofrinho deve ser sadismo.

Ao relativizar o ponto de vista, encontrar centavos na carteira pode fazer você mais feliz e até parecer mais importante do que ceder dois mil reais em uma negociação de 350 mil. É assim que o governo faz para você se sentir bem ao entregar o seu Imposto de Renda. A percepção geral é a de que estamos sempre recebendo um valor monetário do governo, ano após ano. Você cede dois mil reais na casa e fica feliz em encontrar 50 centavos na calça.

Ao cobrar o imposto na fonte, o governo se apodera de um quinhão (na verdade, um terço) do seu salário antes de que você se dê falta do mesmo. Todas as suas despesas rotineiras são então baseadas neste saldo “líquido”, do qual você se acostuma e molda seu estilo de vida. O montante (por que é literalmente um belo monte) que foi subtraído não faz falta, pois não foi contabilizado e, na sua cabeça, não é mais seu.

Eis que, ao entregar o Imposto de Renda, você descobre que “tem a receber” um dinheiro do governo. Quanto mais a Receita Federal lhe tirar do salário mensalmente, quanto mais lhe impedir de usar, impedir você de comprar coisas e de fazer a economia circular, mais você irá receber de “restituição” de IR. E mais ainda você ficará feliz. Novamente o sadismo do cofrinho.

Fosse o Imposto de Renda pensado na forma de gerar empregos, estimular a indústria e o comércio, aumentar o crédito pessoal e o consumo, deixaria essa “mordida” mensal na mão do contribuinte e faria apenas uma cobrança anual. Tal qual o IPTU. O motivo pelo qual o governo não age desta forma, produtiva e inteligente é que, sabendo o quanto deve pagar de Imposto de Renda, o cidadão teria noção real do total que o governo abocanha do seu trabalho por ano e não iria deixar barato. Vide os protestos a cada aumento de IPVA ou IPTU. Esta é exatamente uma das bandeiras do partido NOVO: deixar mais renda na mão do trabalhador.

O governo sabe que para o cidadão que recebe 100 mil reais anuais, preencher um cheque de 27 mil reais, na lata, tem um efeito muito mais devastador sobre um contracheque de R$7,700,00 do que receber os seus parcos R$5.600,00 mensais e um singelo “cala-boca” feliz, de dois mil reais, ao final de cada ano. Relativizando o ponto de vista, minimizando a percepção do quanto abrimos mão em termos absolutos (como na negociação da casa) e enfatizando a relação entre salário mensal líquido e a restituição anual (muitas moedas!), o governo nos mantém a tapa-olhos empurrando a sua gorda carroça.

Dennys Caesar de Andrade é geógrafo formado pela FFLCH-USP com extensão em Negócios e Comércio pela FGV. Atua na área de Inteligência de Mercado, Expansão e M&A do Grupo Carrefour e mantém voluntariamente o Blog 30 Diários, onde escreve aos sábados. É um dos coordenadores do Grupo de Ação de Rua da Zona Oeste de São Paulo e modera a página dos filiados e simpatizantes do NOVO na Zona Oeste, no Facebook.

 

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