Pequeno Teatro da Ilíada e Odisseia


O novo livro da BKCC, com previsão de lançamento para o final de julho, adapta os clássicos Ilíada e Odisseia para o formato de teatro. São 38 cenas curtas mas que contam a história inteira, incluindo os fatos anteriores aos narrados na Ilíada, ideal para encenar com os alunos no ensino fundamental.

Uma peça de teatro para que os adolescentes possam conhecer e interpretar a história, viver parte da nossa pujante herança cultural e absorver as referências necessárias para moldar a vida segundo os valores ocidentais.

Leia abaixo as primeiras cenas (capítulos) do livro Pequeno Teatro da Ilíada e Odisseia, que explicam a origem da maldição sobre a cidade de Troia:

 

Ato I Cena I - Monte Olimpo - Livro Pequeno Teatro da Ilíada e Odisseia - Teatro completo para o ensino fundamental

Monte Olimpo

Cena I

Monte Olimpo

Zeus levanta-se de seu trono e com voz estrondosa, pede a atenção de todos os presentes no grande salão de paredes brilhantes, no ponto mais alto do Monte Olimpo. Os deuses estão reunidos, comendo e bebendo em um grande banquete festivo.

ZEUS

Atenção todos! Eu tenho um grande anúncio a fazer (os deuses se calam e um grande silêncio exalta a autoridade do maior de todos) Quero fazer um brinde à primeira criança da linhagem de Perseu que vai nascer esta noite… o seu destino é o de ser o maior herói grego jamais visto, e terá o meu sangue! Ele fará real o sonho de unir os gregos1 em um único e grande reino! (Hera enrubesce de raiva com mais uma traição do seu marido)

HERA

Nunca! (virando-se para a deusa Ate) Jamais permitirei tal afronta! Ate, preciso da sua ajuda (e sussurra algo no ouvido de Ate, que levanta-se e vai até Zeus, distraindo-o).

ATE

Que maravilha meu pai! (brinda com Zeus) Estou muito feliz! (abraça-o e depois permanece atrás dele, enfeitiçando-o com as mãos e amortecendo seus sentidos enquanto Hera se aproxima)

HERA

Meu marido! O que diz é um sonho para os gregos, você jura, pelas águas sagradas do rio Estige2, que essa primeira criança perseida3 que nascerá essa noite será o futuro rei dos reis?

ZEUS

Eu sou Zeus! Eu não minto! (desafiando Hera) Pelas águas que correm no Estige eu reafirmo: a primeira criança descendente de Perseu que nascer essa noite, será o líder de todos os gregos!

HERA

Que assim seja, meu marido. (Hera, satisfeita com a promessa, retira-se do banquete e inicia uma oração) Eu invoco as Moiras4, filhas da noite, que regem a vida dos deuses e dos homens… apareçam, apareçam! (entram as três Moiras: Fiandeira, Acaso e Inflexível, voando e dançando ao redor da deusa)

MOIRAS

Tecendo a teia

cirzam irmãs!

A vida, arreia,

a qual xamãs!

Da morte, apeia,

sagaz titãs!

Falais atento

o teu lamento 5

HERA

Moiras, eu as invoco! Vão depressa para Tebas e lá encontrem a jovem Alcmena, retardem ao máximo o nascimento do filho bastardo de Zeus.

MOIRAS

Zeus! Zeus! Zeus! (gritam)

HERAS

Sentem-se à porta da jovem Alcmena, cruzem seus braços e suas pernas e impeçam essa criança de ver a luz do dia…

MOIRAS

Dia! Dia! Dia! (gritam)

HERA

mas antes, façam com que o filho6 de Estênelo e Nicipe nasça prematuro e cumpra a profecia de meu marido… essa criança, e não o filho de Alcmena, será o futuro rei dos perseidas…

MOIRAS

Vamos, Moiras, vamos lá!

Sorte gira, linha corta,

toda vida vai fiando.

Vamos, vamos, lá voando!

Deus ou humano, pé na porta,

vida ou morte digo já. 7

HERA

Idem! Idem! (as Moiras saem voadas, cantarolando a sorte dos homens)

 

Ato I Cena II - Héracles de Tebas - Livro Pequeno Teatro da Ilíada e Odisseia - Teatro completo para o ensino fundamental

Moiras

Cena II

Héracles de Tebas

Alcmena sofre de maneira horrível e prolongada com as dores do parto, que já avança pelo décimo mês. Sua amiga Galintia, procura desesperadamente uma maneira de ajudá-la enquanto põe outro pano molhado sobre a sua testa.

GALINTIA

Ninguém merece tamanha penitência minha amiga, não aguento mais ver-te sofrendo assim, eu preciso fazer algo (trocando os panos em sua testa).

ALCMENA

Vai amiga, diz àquelas feiticeiras sentadas à porta que o bebê finalmente nasceu, quem sabe assim elas vão embora (Galintia faz um corte em sua mão com a tesoura e tinge de sangue o pano da compressa).

GALINTIA

Nasceu, nasceu! É um menino, é um menino! (Corre em direção às Moiras, sentadas de braços e pernas cruzadas à porta da casa e exibe o pano avermelhado como prova do acontecido). Zeus está aqui e veio conhecer o filho que finalmente nasceu! Venham, venham, entrem e comemorem conosco!

FIANDEIRA

Isso é impossível!

MEDIANEIRA

Zeus está aqui? Vamos embora irmãs, antes que ele nos veja!

INFLEXÍVEL

Rápido, rápido! (Boquiabertas e assustadas pela intervenção divina as três Moiras voam, espantadas pelo aparente fracasso. O filho de Zeus com a mortal Alcmena pode finalmente ver a luz do dia).

ALCMENA

Galintia… corre Galintia! Deu certo, o bebê está nascendo, ajude-me!

GALINTIA

Veja Alcmena, que menino enorme!

ALCMENA

Seu nome será Héracles8 (observando o sucesso do seu plano, Hera vai até Zeus e, com um sorriso malicioso, lhe conta da frustração dos seus planos).

HERA

Seu filho bastardo não será o rei, nunca será! Antes, obedecerá a Euristeu, o pequeno filho de Estênelo, que nasceu primeiro(Zeus emudece de ódio e percebendo que foi distraído por Ate, agarra sua filha pelos cabelos e a atira do alto do monte Olimpo para a terra, amaldiçoando para sempre a colina onde a deusa caiu).

 

Ato I Cena III - Deusa Athena Atena segurando Paladio Palladium - Livro Pequeno Teatro da Ilíada e Odisseia - Teatro completo para o ensino fundamental

Deusa Atena segurando o Paládio

Cena III

A Fundação de Troia

Admirado pelo desempenho de Ilos nas competições atléticas da Frígia, o rei presenteou-o com 50 homens, 50 mulheres e uma vaca. Disselhe para que soltasse a vaca e a seguisse, até o local onde essa tombasse. Nesse lugar, ele deveria fundar a sua própria cidade.

ILOS

Por Zeus, o que faço? Obedeço ao rei da Frigia ou ignoro as suas ordens? A vaca foi cair justamente na Colina de Ate…

NICOLAU

Não podemos levantar a cidade neste lugar Ilos, conhece muito bem a profecia, ela é bem clara: “Os homens que habitarem dentro das muralhas da cidade erguida na colina de Ate sofrerão grandes calamidades”.

ILOS

Eu conheço a profecia Nicolau, o oráculo é bastante claro, mas a deusa Atena não permitiria que o animal caísse aqui sem ter um motivo para isso. Deve haver uma razão…

NICOLAU

Será que nós entendemos corretamente o sentido da profecia? Será possível que isso seja um teste, um tipo de prova? (Ilos abaixa a cabeça e recapitula pausadamente o oráculo).

ILOS

Os homens que habitarem dentro das muralhas da cidade…”, “dentro das muralhas da cidade…” é isso Nicolau! Se não há muralhas, ninguém habitará dentro das muralhas! Vamos erguer uma cidade sem muralhas! E que Atena proteja a nossa cidade! Vamos, comecemos a cavar… (Nicolau enfia sua pá na terra e encontra um Paládio, uma pequena estatueta de madeira representando Palas, a companheira da deusa Atena).

NICOLAU

Ilos! Veja aqui o que eu encontrei enterrado no chão, um pequeno paládio! Isso só pode significar uma coisa, é o sinal de que a deusa Atenas abençoa a nossa decisão! Estamos corretos!

ILOS

Sim meu caro Nicolau! Essa é a prova de que estamos certos e de que essa cidade esta sob a proteção da deusa. Mesmo assim, eu vou consultar o oráculo sobre esse achado (Ilos vai até um oráculo, que acompanha a comitiva).

ILOS

Diga-me caro Oráculo, que tudo vê e que tudo sabe, será esse Paládio uma prova da benevolência da deusa Atena com a nossa decisão de aqui erguer a minha cidade?

ORÁCULO

Mantenha o Paládio dentro da cidade e ela estará protegida.

ILOS

É com grande satisfação que ouço essas palavras, muito obrigado Oráculo, eu…

ORÁCULO

Espere… (apontando o indicador para Ilos) Se algum dia o Paládio sumir ou for roubado e sair da cidade, com ele, desaparecerá a cidade inteira.

ILOS

Que assim seja, caro oráculo. (Levanta-se e avisa Nicolau das boas novas) Atena será a nossa protetora e nesta colina será erguida a cidade de Troia9!

 

Ato I Cena IV - Livro Pequeno Teatro da Ilíada e Odisseia - Paris and Hacabe - Vincent Camuccini (1771-1844)

Paris and Hacabe – Vincent Camuccini (1771-1844)

Cena IV

O Que Não Deveria Ter Nascido

Príamo, neto de Ilos, reinou em Troia durante muitos anos. Seu primeiro filho com a rainha Hécabe foi Heitor, que seria conhecido como o maior de todos os troianos. Seu segundo filho foi Paris, aquele “que não deveria ter nascido”.

HÉCABE

Acorde, meu marido! Anda, acorde! Tive um pesadelo horrível… sonhei que toda Ílion ardia em chamas… e tudo por culpa deste bebê, que carrego em meu ventre! Foi horrível… (continua a chorar)

PRÍAMO

Calma, meu amor, acalme-se! Essa premonição é muito séria, eu vou consultar o oráculo (Levanta-se e vai falar com o oráculo). Diga-me Oráculo, você que tudo vê e que tudo sabe, que destino espera essa criança no ventre de Hécabe? Há algo que eu precise me preocupar?

ORÁCULO

A criança que está para nascer será muito bela e uma saúde digna da linhagem real…

PRÍAMO

Que bom (aliviado). Muito me agrada saber que será uma criança saudável… mas, diga-me, o povo de Troia, correrá algum perigo?

ORÁCULO

A vida dessa criança… será a morte de Troia… se quiser salvar a cidade, deve sacrificar a criança.

PRÍAMO

Por Zeus! (desconsolado) Que assim seja. O bebê não deverá viver, ele será sacrificado. (Voltando-se para a rainha) Quando o bebê nascer eu vou pedir ao pastor Agelau para levá-lo.

HÉCABE

Nãooo… (cai ajoelhada, colocando as mãos sobre o seu ventre, em desespero)

(Assim que o bebê nasce é entregue a Agelau, com ordens para sacrificá-lo. Agelau e sua esposa contrariam a determinação e passam a cuidar da criança10 que cresce como um pastor, de grande beleza física e inteligência, dignas da linhagem real).

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1 – Apesar de guerrearem umas contra as outras, as cidades-estado gregas falavam a mesma língua, reverenciavam os mesmos deuses e partilhavam da mesma cultura. O nascimento de Héracles (ou Hércules) personifica o antigo desejo ancestral da unificação de todos os gregos em um só Estado.
2 – Nome de uma ninfa que ajudou Zeus na guerra dos Titãs ou Titanomaquia e foi recompensada com uma fonte de águas mágicas, um longo rio que desaguaria no submundo. Diz a lenda que nem mesmo os deuses podem quebrar uma promessa feita pelo Estige.

3 – Filho de Perseu.

4 – As três irmãs fiandeiras são representantes das forças elementares do mundo que regulavam a duração da vida desde o nascimento até a morte. Trabalham em seu tear, cuja roda representa a fortuna onde os fios dos mortais tem os seus altos (sorte) e baixos (azar); Cloto (Fiandeira) fiava o fio do destino, Láquesis (Acaso) enrolava o fio e Átropos (Inflexível) cortava-o, quando esta chegava ao seu fim.

5 – Poema de oitava-rima ou oitava heroica (estrofe de oito versos), com esquema rítmico (ABABABCC) denominado Jambo ou Iambo (formado por uma sílaba curta átona e uma sílaba longa tônica, ex.: portão); “Súplica às Moiras”, do autor.

6 – O pequeno e frágil Euristeu, filho de Estênelo, rei de Micenas e descendente de Perseu, nasce prematuro de sete meses e herda o trono no lugar do filho de Zeus, Héracles.

7 – Poema de dois tercetos (estrofes de três versos), com esquema rítmico (ABC CBA) denominado Troqueu ou Coreu (formado por uma sílaba longa tônica e uma breve átona, ex,: porta); “Empresa das Moiras”, do autor.

8 – Mais conhecido por seu nome romano: Hércules.

9 – Em homenagem a seu pai, Trós. Chamada por outros de Ílion, o nome de seu fundador.

10 – Agelau e sua esposa cuidaram daquele bebê como se fosse o seu próprio, colocando-o em um cesto. Todos os cuidados voltavam-se para aquele “cesto”, de modo que o menino passou a se chamar Paris, que significava “cesto” naquele tempo.

 

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