Desenhos Animados Parte I: Pica-Pau vs Dora Aventureira


Desenho Animado parte I - Pica-Pau versus Dora Aventureira Raposo bão pegue

Há tempos somos testemunhas de uma “progressiva” mutação atitudinal, presente principalmente na chamada geração milenium. Antes de ser algo positivo, essa nova atitude nada mais é do que uma régua generalizada, um reducionismo seco, que nivela todas as relações humanas sob a batuta de um discurso que “não afete”, que “não machuque”, enfim, que adapta todas as relações humanas dentro de um molde comportamental imposto (não natural), não apenas padronizado, mas também como o único “permitido”.

Observa-se bem: não discutimos a seara do totalitarismo, não ainda.

Dentro desse “padrão”, todo pensamento, toda expressão com “potencial” de ofender outrem deve ser evitado, suprimido, censurado. Inúmeras leis são sugeridas com esta finalidade, a de criar um “sensor”, um agente público ou qualquer modalidade de poder para “reprimir”, restringir acesso ou mesmo censurar tais infrações. Uma vez tolhida, a humanidade encaminharia-se rapidamente para uma sociedade “livre de ameaças”, um lugar de flores, onde todos seriam livres para viver em fofas “zonas livres de agressões”. Desde que alguém, algo ou alguma coisa cumprisse o seu papel de vigia e zelasse por todos nós.

Seria o início da liberdade! (sic) Uma vez livre das “amarras morais” da sociedade “patriarcal”, seria possível trocar essa gama de princípios “atrasados” pela mais completa liberdade, com cada qual fazendo o que desse na telha, desde que rezasse a cartilha progressista a risca. Qualquer pé fora da linha, qualquer deslize de caráter ou simples opinião mal interpretada seria a deixa para qualquer um de nós ser “cancelado”. Adeus trabalho, tchau família e sumiram os amigos – não há espaço para discórdia! Lembre-se de reprimir a sua opinião, qualquer opinião! Você sempre poderá “ofender” alguém.

Para quem acha essa ideia de que o politicamente correto é algo inofensivo ou do qual se está ileso ou até muito afastado de suas possíveis consequências, atentamo-nos a outro fato inexorável: é tarde demais para evitar e boa parte da atual geração, por volta dos seus vinte anos, está irremediavelmente cozida. Dada a perspectiva do alcance cultural monopolista e das suas raízes profundas, seu potencial destrutivo é intrínseco e depende unicamente da manutenção pétrea da espiral do silêncio que mantém o seu argumento válido.

Não basta exibir a verdade, dizer a verdade, sequer esfregá-la na cara daqueles que não a desejam ver. A sobrevivência da verdade depende daquelas poucas e corajosas vozes que ousam manter a chama do pensamento acesa, da dúvida que permite questionar absolutos “per si”, de chamá-los pelo nome verdadeiro, vozes que digam “vocês acreditarão em mim ou nos seus olhos?”.

A maioria desses jovens pós Internet diz idolatrar a liberdade e, para garanti-la, farão questão de incluir todo e qualquer “direito” nas bonitas letras da lei. A palavra escrita vem em substituição ao dever moral, àquelas noções mais básicas, passadas de pai para filho, por gerações, sobre ser cuidadoso com aos mais velhos, respeitar as mulheres e ajudar aos incapacitados; sobre respeitar filas, ser caridoso, dar gorjetas à quem merece. Até mesmo o respeito pelos mais experientes ou o dever de cuidar dos avós, agora, precisa estar na lei. Parecem ter desaprendido a aprender, para devotar todas as decisões, terceirizar a proteção da sua família e, se pudesse, todo o seu sustento por uma renda universal, tudo, garantido pelo Estado.

E onde entra o Pica-pau e a Dória?

Quando a proteção do tal Estado falha, quando alguns indivíduos não respeitam as tais “palavras no papel”, concorde você ou não com os motivos, quando não aparecer uma alma fardada para proteger a você ou a sua família, o que irá restar? A única coisa que sobrará será o indivíduo e a sua consciência. Em um completo estado de exceção ou em uma simples briga de rua, nada impedirá o mais forte ou uma turba raivosa de tirar vantagem (bater, roubar, matar) o mais vulnerável, a não ser que este possua um modo de neutralizar e de tornar a ameaça desvantajosa para o agressor.

As crianças de hoje crescem aprendendo que uma ameaça se neutraliza com palavras. Em Dória Aventureira, a ameaça vem na forma de uma raposa, que volta e meia aparece para trapacear ou para roubar algo (assim como em todas as relações humanas, e nunca será diferente). O desenho animado ensina que para Dória eliminar uma ameaça, basta desejar – com muita força – e gritar três vezes, a todo pulmão: “Raposa não pegue!” e a ameaça se extingue. Nada mais simples, nada mais bonitinho e nada mais irrealisticamente perigoso! É de arrepiar a espinha imaginar como essa criança lidará com os seus problemas quando for um adulto e tiver que encarar um simples contratempo – no trabalho, na rua ou de um relacionamento. O desejo explícito e não atendido tornar-se-á uma incógnita da qual é impossível prever as consequências.

Já a geração que cresceu conectada ao mundo real, assistindo ao Pica-pau lidar com seus problemas, lidar com as suas frustrações, reagir a agressões e proteger-se delas, lida com muito mais habilidade às reviravoltas da vida real – aquela onde as “zonas seguras” podem evaporar de um minuto para o outro.

O casal do vídeo abaixo aparece de armas em punho, defendendo-se de vândalos travestidos de manifestantes que ameaçaram invadir a sua propriedade e à eles próprios.  O Estado não os protegeu mas sim o direito à proteção individual (ainda ele) que evitou um verdadeiro desastre. Foi o direito de “atirar” em quem invadir a sua propriedade sem a sua permissão (pisar na grama, literalmente) que persuadiu a massa raivosa de não massacrar o casal. Apenas imaginem a cena que veríamos caso eles não estivessem armados, caso eles gritassem a plenos pulmões: “É proibido entrar”! Será que funcionaria?

Ainda bem que esse casal assistiu bastante “Pica-Pau”. Fosse a geração empanturrada de Dória Aventureira, estaria ajoelhada e implorando perdão choramingando: “Raposo, não pegue”, “Raposo, não bata”, “Raposo, não mate”.

 

 

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