Merquior: Liberalismo antigo e moderno


Merquior 2

Por Roberto Campos (1991),

Este é um livro liberal sobre o liberalismo, escrito por
alguém que acredita que o liberalismo, se entendido
apropriadamente, resiste a qualquer vilificação.
Merquior, na introdução de
Liberalism, Old and New

A partida de José Guilherme Merquior, aos 49 anos, no apogeu da produtividade, parece um cruel desperdício. Deus faz dessas coisas. Fabrica gênios e depois quebra o molde. Às vezes, dá vontade de a gente, como no poema de Murilo Mendes, intimar o Criador a não repetir a piada da Criação…

Legou-nos uma rica obra, que vai da crítica literária à filosofia, à sociologia e à ciência política. Escrevendo em inglês e francês, com fluência igual à exibida em sua língua nativa, Merquior tem hoje como sociólogo uma projeção internacional somente comparável à alcançada em sua época por Gilberto Freyre, em seus pioneiros estudos sociológicos. Só que mais diversificada, pois que abrange importantes excursões na filosofia e na ciência política.

O magnum opus de Merquior é sem dúvida O Liberalismo – Antigo e Moderno, escrito quando ainda embaixador no México, num curto período de quatro meses. Somente uma prodigiosa erudição acumulada lhe permitiria desenhar em tão pouco tempo esse catedralesco mural que descreve a longa e ziguezagueante peregrinação humana em busca da sociedade aberta. Talvez Merquior pressentisse que o rondavam as Parcas e que se impunha um esforço de coroamento de obra.

Faltava-nos, em relação ao liberalismo, aquilo que Toynbee chamava de visão “panorâmica ao invés de microscópica”. Essa lacuna foi preenchida pelo sobrevoo intelectual de Merquior, que cobre nada menos que três séculos. Seu livro será uma indispensável referência, pois que analisa as diferentes vertentes do liberalismo com sobras de erudição e imensa capacidade de avaliação. Mais do que uma simples história das ideias, é um ensaio de crítica filosófica.

A publicação da versão brasileira do Liberalism, Old and New não poderia vir num momento mais oportuno. É que o mundo assiste agora à vitória do liberalismo em suas duas faces – a democracia política e a economia de mercado – não apenas como doutrina intelectual, cuja evolução Merquior traça com maestria, mas como praxe política.
No Annus Mirabilis de 1989 pode-se dizer que, ao ruir o muro de Berlim, terminou a Guerra Fria entre o capitalismo e o comunismo. Este deixou de ser um paradigma. É para alguns um pesadelo, para outros uma nostalgia, para ninguém um modelo.

O Annus Mirabilis de 1989 será visto, em perspectiva, como um dos grandes divisores de água da história, comparável talvez ao de 1776, quando começou a desenhar-se a grande passagem do mercantilismo para o capitalismo liberal e a democracia constitucional.
Este século, que alhures chamei de “século esquisito”, assistiu ao fenecimento e à ressurreição do liberalismo. O liberalismo econômico pregado em 1776 por Adam Smith somente viria a tornar-se a doutrina vitoriosa em meados do século XIX. Contribuiu para o fortalecimento da democracia política e para a prosperidade da belle époque.

Os desafios socialistas eram antes doutrinários que práticas de governo. A Revolução Soviética de 1917 iniciava a “era coletivista” de esquerda, enquanto o nazi-fascismo viria a representar um “coletivismo” de direita.

A grande depressão dos anos 1930 enfraqueceu o capitalismo liberal e surgiu o keynesianismo como doutrina salvadora. Este se baseava, entretanto, numa sobrestimação da capacidade dos governos de gestionar a economia através de uma “sintonia fina” das variáveis macroeconômicas.

O neoliberalismo econômico só ressurgiria como praxis política na década de 1980. Se o período entre 1920 e 1980 foi a “era coletivista”, como a chamou Paul Johnson, entramos nesta última década na idade liberal. Ou, como Merquior faz notar pitorescamente, “nos últimos anos de década de 1940, os socialismos fizeram o papel de juízes; nos últimos anos da década de 1980, eles próprios estão sendo julgados”.

Em formoso estudo recente, o grande patrono da economia liberal, Milton Friedman, interpreta a onda de liberalismo econômico que sopra no mundo como a “terceira maré”, desde o Annus Mirabilis de 1776.

Nesse, três coisas aconteceram simultaneamente, sem que os coetâneos percebessem suas consequências majestáticas – o nascimento do liberalismo econômico, o deslanche da Revolução Industrial e a criação de um modelo de democracia política pela Revolução Americana. Quem vivesse no ano 1776 não saberia que um livro – A Riqueza das Nações – e um curto documento político – a Declaração de Filadélfia – dos rebeldes norte-americanos mudariam a face do mundo.

Essa foi a primeira maré. Viria depois a “maré coletivista”, que invadiu a maior parte deste século. Friedman dá a essa maré, que expandiu o intervencionismo do Estado e apequenou as liberdades do indivíduo, o nome de maré fabiana. É que ele atribuiu o fermento intelectual do coletivismo à fundação da Sociedade Fabiana pelos socialistas ingleses, em 1884. Estes pregavam a “marcha gradual para o socialismo”. Tal imputação é arbitrária, pois talvez se possa dizer que o grande desafio ao liberalismo proveio do Manifesto Comunista de Marx e Engels, de 1848. A “terceira maré”, que está despontando na atual década com a ressurgência do liberalismo econômico, teria começado com outro livro – O Caminho da Servidão, de Hayek, publicado em 1944.

Friedman aponta características interessantes nessas marés da história. A “primeira” é que elas começam como um fenômeno puramente intelectual: um desafio herético às doutrinas correntes. Anos ou décadas se passam antes de se transformarem em ação política. Adam Smith achava que, ao pregar o livre comércio, estava pregando uma utopia. Entretanto, setenta anos depois, com a ab-rogação da Lei do Milho na Inglaterra, liberava-se o comércio de grãos e, 86 anos depois, a Inglaterra e a França assinavam o Tratado Cobden de livre comércio.

A fermentação coletivista, que no continente europeu começou com Marx e na Inglaterra com os fabianos, começaria a invadir o mundo com o colapso da velha ordem na Segunda Guerra Mundial e com o advento da Revolução Russa, quase setenta anos depois do Manifesto Comunista. O golpe quase mortal no liberalismo seria a Grande Depressão dos anos 1930. Foi a falência da empresa privada que anemizou o liberalismo, da mesma forma que nesta década a falência do Estado começou a matar o coletivismo.

As teorias de Hayek tiveram que hibernar quarenta anos. Durante esse período, além do marxismo, vicejou o keynesianismo, que sobre-estimava a capacidade dos governos de manipular instrumentos fiscais para estabilizar a economia e evitar o desemprego.

A “outra” característica interessante, segundo Friedman, é que as novas marés se formam quando as antigas atingem seu apogeu. O marxismo e o fabianismo nasceram quando o liberalismo dera ao mundo quase um século de prosperidade econômica e propiciava crescente liberdade política. A maré neoliberal começou, paradoxalmente, no auge do intervencionismo governamental, durante a Segunda Guerra Mundial.

Entretanto, só nesta década dos 1980 após fracassadas duas experiências coletivistas, o nazismo e o comunismo, e uma experiência dirigista – keynesianismo – é que o neoliberalismo chegou ao poder político. A eleição de Madame Thatcher na Inglaterra e do presidente Reagan nos Estados Unidos marcou o divisor de águas.

A terceira característica é que os períodos de liberalismo econômico induzem um certo grau de liberdade política, enquanto o coletivismo econômico é habitualmente associado ao despotismo político, como aconteceu com Hitler e Stalin.

Será a presente ascensão neoliberal apenas um refluxo da maré ou estaremos em face de um fenômeno histórico novo, o casamento da democracia política com a economia de mercado? Francis Fukuyama, funcionário do Departamento do Estado, num artigo intitulado “O Fim da História”, que provocou grande controvérsia, pretende que a história do pensamento sobre os princípios fundamentais que governam a organização política e social estaria terminada através da vitória do liberalismo político e econômico.

Isso marcaria não só o fim da Guerra Fria, mas a prevalência de um formato político-social com características de “sustentabilidade” e “universabilidade”. Fukuyama dá mais ênfase ao liberalismo político. Mas o fenômeno é mais abrangente, pois que se tornou também vitoriosa a economia de mercado sobre os regimes dirigistas. É precisamente a conjugação do liberalismo político com o liberalismo econômico que se pode chamar de “capitalismo democrático”.

Antes de se candidatar à condição de ideologia universal, o liberalismo político-econômico teve, entretanto, de enfrentar perigosos desafios neste século. Um sério desafio “interno” foi a grande depressão dos anos 1930, que criou dúvidas sobre a economia de mercado e encorajou experimentos dirigistas. Muitos falaram então no “fim do capitalismo”. Mas houve dois desafios “externos” – o nazismo, principalmente no plano político, e o comunismo, principalmente no plano econômico.

Conjurados esses desafios, com o sepultamento do nazismo e a agonia do comunismo, não há ideologias alternativas que possam competir com o liberalismo democrático na ambição de se universalizar como forma definitiva do governo. Esse, o fato novo na história da humanidade.

Restam poucas dúvidas de que esse formato político-social se consolide neste fim de milênio. Até mesmo por exclusão. Falharam as ideologias alternativas. O socialismo “real” exibiu dois ingredientes funestos – a máquina do terror e a ineficiência econômica. Os experimentos ideológicos do Terceiro Mundo, como o fundamentalismo islâmico, só trouxeram violência e pobreza. O populismo nacionaloide, tão encontradiço na América Latina e África, trouxe um rosário de fracassos. Finalmente, o nacionalismo não tem, por sua própria natureza, características universalizáveis. Pode-se aliás falar numa “crise do nacionalismo”, pois este fim de século nos apresenta contrastes esquisitos. Enfraquece-se de um lado, o nacionalismo do Estado-nação. O que se fortalece é o “nacionalismo das etnias”, buscando afirmação de identidade, preservação da língua nativa e autonomia administrativa, sem infirmar entretanto o desejo de integração em blocos econômicos maiores. Cada vez mais se reconhece o “paradoxo de Daniel Bell”: “o Estado-nação é grande demais para os pequenos problemas e pequeno demais para os grandes problemas”.

Dentro dessa cosmovisão pode-se considerar os países como divididos em dois grandes grupos: os que atingiram o estágio de “tranquilidade sistêmica”, nos quais não estão mais em jogo as opções institucionais básicas; os conflitos remanescentes se referem a programas partidários, personalidades e prioridades na alocação de recursos. Dentro dos limites da condição humana, ter-se-ia atingido, após uma busca secular, uma forma de governo que permite conciliar o tríplice objetivo da liberdade política, eficiência econômica e razoável satisfação social (no sentido de que nenhum sistema alternativo oferece melhores perspectivas de bem-estar social).

As áreas de tranquilidade sistêmica seriam basicamente a Norte-América, a Australásia, o Japão e a Europa Ocidental. É surpreendente neste fim de século o ressurgimento do liberalismo econômico como ideia-força. Ele desbancou o keynesianismo, o estatismo assistencial, o planejamento dirigista e, finalmente, a social-democracia, pois que as economias europeias modernas se conformam cada vez mais aos princípios da economia de mercado, substituindo a igualdade pela eficiência. Exceto no Brasil, onde as ideias chegam com atraso, como se fossem queijos que necessitem envelhecimento, a social-democracia não é percebida como o último reduto do dirigismo e sim como o primeiro capítulo do liberalismo.

São variados os rótulos dos governos europeus – conservadores, liberais, social-democratas, democratas-cristãos, centro-direita e socialistas. Mas a integração prevista para 1992 traz embutida uma harmonização de políticas à base de dois princípios da moderna economia de mercado; o “globalismo”, pois as fábricas se tornam globais, e os mercados financeiros, integrados; e o “clientelismo”, pois que o soberano será o consumidor e não o planejador. O socialista francês Michel Rocard, ex-primeiro-ministro, se diz um “socialista de livre mercado”. Felipe González, o socialista espanhol, fala num socialismo supply side, de nítida preocupação produtivista, antes que distributivista. Há menos ênfase sobre a independência e mais sobre a “interdependência”.

O fim da história como ideologia, observa Fukuyama, não significaria o fim dos conflitos. Apenas estes dificilmente seriam conflitos globais. Serão o produto de nacionalismos locais, de tensões religiosas como o fundamentalismo islâmico, da frustrada busca terceiro-mundista de uma terceira via entre o capitalismo e o socialismo. Somente será capaz de prover tranquilidade sistêmica o formato de governo que apresente duas características: sustentabilidade e universalidade. Em outras palavras, é preciso uma ideologia não excludente baseada em métodos consensuais e susceptível de universalização como paradigma.

A maior parte do mundo, entretanto, se acha em estado de intranquilidade sistêmica, com vários processos e em vários graus de transição. É que ocorre no mundo socialista e na grande maioria dos países que se convencionou chamar de “terceiro mundo”. As duas grandes potências socialistas, a União Soviética e a China, estão cada qual à sua maneira buscando um formato político e social estável. A China começou pela reforma econômica mas sofre de paralisia política. A União Soviética fez a sua glasnost política mas fracassou em sua perestroika econômica, pois a economia de mercado ainda é uma visão longínqua. Os países pós-comunistas da Europa Oriental estão tentando uma transição simultânea do autoritarismo político para a democracia representativa, e da economia de comando para a economia de mercado. A franja asiática experimenta também um processo de transição: Coreia do Sul e Taiwan são economias de mercado em fase de democratização política. Tailândia, Malásia e Indonésia combinam resquícios autoritários na política com ensaios de política de mercado. A Índia é uma grande e robusta democracia política, mas, dominada por uma burocracia socializante, está longe de se parecer com uma economia de mercado.

Na America Latina, praticamente inexiste o capitalismo democrático. É verdade que houve um reflorescimento da democracia. As ditaduras estão fora de moda, só restando Cuba, como caso teratológico. No sul do continente, o Brasil, a Argentina, o Uruguai e o Peru fizeram sua transição democrática. Mas nenhum desses países aceita a disciplina da economia de mercado. Todos insistem em controles burocráticos, mantêm inchadas máquinas estatais e se protegem através de reservas de mercado. Essas são as características das sociedades “mercantilistas”.

Aliás, apenas três países – Chile, Bolívia e México – aderiram explicitamente ao ideário da economia de mercado e, se completada sem transtorno sua liberalização política, serão os primeiros exemplos de capitalismo democrático na América Latina.
A vitória atual do liberalismo sobre ideologias alternativas é a culminação de um longo e complexo histórico que Merquior nos desvenda, em seu grande mural, com fina percepção das nuances de pensamento. Sem deixar, aliás, de nos advertir de que o renascimento de mais liberdade econômica – a tendência liberista – não significa um golpe de morte para os impulsos igualitários. A sociedade, diz ele, permanece caracterizada por uma “dialética contínua, embora cambiante, entre o crescimento da liberdade e o ímpeto em direção a uma maior igualdade”.

Diferentemente das utopias radicais, que simplificam barbaramente a realidade, o liberalismo comporta uma larga variedade de valores e crenças. Isso deriva da diferença percebida nos obstáculos à liberdade e no próprio conceito de liberdade, a começar pela clássica distinção de Isaiah Berlin entre a liberdade negativa (ausência de coerção) e a liberdade positiva (presença de opções). Como nota Merquior, há estágios históricos na busca da liberdade.

A primeira é a liberdade contra a opressão, luta imemorial. A segunda é a liberdade de participação política, invenção da democracia ateniense. A terceira é a liberdade de consciência, penosamente alcançada na Europa em resultado da Reforma e das guerras de religião. A quarta, mais moderada, é a liberdade de autorrealização, possibilitada pela divisão do trabalho e pelo surgimento da sociedade de consumo.

São luminosas as páginas de Merquior sobre o “liberalismo clássico”, com seu tríplice componente: a teoria dos direitos humanos, o constitucionalismo e a economia liberal. Muito mais que uma fórmula política, o liberalismo é uma convicção, que encontrou sua expressão prática mais concreta com a formação da democracia americana, cujos patriarcas combinaram, na formação da república, as lições de Locke sobre os direitos humanos, de Montesquieu sobre a divisão de poderes e de Rousseau sobre o contrato democrático. Uma curiosa observação de Merquior é a diferença vocacional entre os teóricos do liberalismo. Os liberais ingleses eram principalmente economistas e filósofos morais (Adam Smith e Stuart Mill), os liberais franceses, principalmente historiadores (Guizot e Tocqueville) e os liberais alemães, principalmente juristas. Na teoria inglesa, liberdade significaria independência; na francesa, autogoverno; na alemã, autorrealização.

Com extraordinária erudição, Merquior disseca as diversas linguagens liberais: a dos direitos humanos, a do humanismo cívico, a dos estágios históricos, a do utilitarismo e a da sociologia histórica. São originais suas observações sobre o surgimento, no século que medeia entre 1830 e 1930, do “conservadorismo liberal”, que era fiel ao individualismo e à liberdade de consciência, mas se contagiou de pessimismo quanto à democracia de massas. No delicado balanço entre as duas vertentes do liberalismo – o libertarianismo e o democratismo – os conservadores liberais, como Spencer e Burke, privilegiaram a primeira. Entre os modernos, Max Weber na Alemanha, Benedetto Croce na Itália e Ortega y Gasset na Espanha, ao enfatizarem a importância do “carisma” e das “elites culturais” para viabilizar a democracia, incorreriam naquilo que Merquior chama de “curiosa alergia que sente o intelectual moderno diante da sociedade moderna”.

Coisa paralela ocorreria recentemente no seio do marxismo, como o assinalou José Guilherme em sua importante obra sobre o Marxismo Ocidental. Desapontados com a inflexão totalitária do socialismo soviético, os marxistas ocidentais na Alemanha e França abandonaram sua crítica obsessiva ao formato democrático das economias liberais para se concentrarem na crítica cultural ao produtivismo e tecnicismo da sociedade burguesa. É mordente, e correto, o veredicto de Perry Anderson: o marxismo ocidental adota o “método como impotência, a arte como consolação e o pessimismo como quiescência”.

São luminosas as considerações de Merquior sobre os principais idiomas do liberalismo no pós-guerra: a crítica do historicismo (Popper), o protesto antitotalitário (Orwell e Camus), a ética do pluralismo (Isaiah Berlin), o neoevolucionismo (Hayek) e a sociologia histórica (Aron).

O mais fascinante dos capítulos do magnum opus de Merquior, em parte por se tratar de terreno menos palmilhado, em parte porque conheci pessoalmente alguns do atores, é o intitulado “Dos Novos Liberalismos aos Neoliberalismos”. Merquior examina eruditamente uma das antigas tensões dialéticas do liberalismo: a tensão entre o crescimento da liberdade e o impulso da igualdade. Nada melhor para se entender a diferença entre o “novo liberalismo” e o “neoliberalismo” do que contrastar lorde Keynes com Hayek. Sobre ambos Merquior redigiu brilhantes vinhetas, generosas demais no tocante a Keynes, e generosas de menos no tocante a Hayek. Como é sabido, Keynes favorecia intervenções governamentais para correção do mercado, enquanto Hayek descrevia esse comportamento como presunçoso “construtivismo”. Para este fim, a função do governo é apenas “prover uma estrutura para o mercado e fornecer os serviços que este não pode prover”.

Em nossas últimas conversas senti que José Guilherme se tornava cada vez mais “liberista”. Neste credo, comungávamos. O “liberista” é aquele que acredita que, se não houver liberdade econômica, as outras liberdades – a civil e a política – desaparecem. Na América Latina, a concentração de poder econômico é um exercício liberticida. Nosso diagnóstico sobre a moléstia brasileira era convergente. Ao Brasil de hoje não falta liberdade. Falta liberismo.

Dois dos mestres – Ralf Dahrendorf e Raymond Aron – cujo pensamento Merquior desfibrila com brilho, num capítulo chamado “Liberalismo Sociológico”, foram nossos amigos comuns. Dahrendorf era no fim dos anos 1970 o presidente da London School of Economics, onde Merquior estudava para doutorado em sociologia. “Não sei por quê”, dizia-me Dahrendorf, “pois tem mais a ensinar do que a aprender”.

Dahrendorf gostava de debater com Merquior suas teses prediletas sobre o conflito social moderno: a disputa entre os que advogam maior “liberdade de escolha” e os que querem um maior “elenco de direitos”. Ou, como nota Merquior, a oposição básica entre provisions (provisões) e entitlements (intitulamentos). Trata-se, no primeiro caso, de alternativas de oferta de bens, um conceito incremental. No segundo, do direito de acesso aos bens, um conceito distributivo. Numa antítese feliz, Merquior fez notar que a Revolução Industrial foi uma revolução de “provisões”, enquanto a Revolução Francesa foi uma revolução de “intitulamentos”. Mais perto de nós, a década de 1970 teria sido um período em que prevaleceram as preocupações com os “intitulamentos”, enquanto a década de 1980 assistiu a uma mudança de políticas, as quais passaram a acentuar a produção mais que a distribuição, ou seja, as provisões antes que os “intitulamentos”. A nova Constituição brasileira, de 1988, exemplifica aliás muito bem esse conflito. As liberdades econômicas são restringidas. As garantias sociais ampliadas. Só que se tornam inviáveis.

Com Aron, eu me encontrava frequentemente num grupo de debates presidido por Henry Kissinger. E sempre Aron me perguntava pelo seu discípulo dileto, “o jovem que tinha lido tudo”. Mas o impressionante em José Guilherme não era a absorção de leituras. Era o metabolismo das ideias. Não se resignava ele a ser um “espectador engajado” como, com exagerada modéstia, se descrevia seu mestre francês. Era um ativista. Por isso passou da “convicção liberal” à “pregação liberal”.

Empenhou-se nos últimos tempos na dupla tarefa – a iluminação do liberalismo, pela busca de suas raízes filosóficas, e a desmistificação do socialismo, pela denúncia do seu fracasso histórico. Isso o levou várias vezes a esgrimas intelectuais com as esquerdas brasileiras, exercício em que sua avassalante superioridade provocava nos contendores a mais dolorosa das feridas – a ferida do orgulho. Não é fácil discutir com nossos patrulhadores de esquerda, viciados na “sedução do mito e na tirania do dogma”, confortavelmente encrustados na “mídia” e brandindo eficazmente duas armas: a adulação e a intimidação. Cooptam idiotas, chamando-os de “progressistas”, e intimidam patriotas, chamando-os de “entreguistas”. Merquior só se desiludiu quando descobriu que na esquerda brasileira ainda há gente que não se dá conta de que caiu o muro de Berlim…

Merquior não passou da polêmica de ideias ao ativismo político, circunscrito que estava por suas funções diplomáticas. Como se enquadraria ele em nosso confuso panorama político? Certamente entre “liberais clássicos”, ou “libertários”, se usarmos a classificação de David Nolan, ou seja, aqueles que desejam preservar a liberdade quer contra o autoritarismo político, quer contra o intervencionismo econômico. O liberal clássico, ou o “liberista”, termo que Merquior gostava de usar reportando-se à controvérsia nos anos 1920, na Itália, entre Einaudi e Croce, em que o primeiro defendia a incompatibilidade entre liberdade política e intervencionismo, enquanto o segundo não repugnava essa coexistência. O liberal difere do “conservador”, pois este admite restrições à liberdade política em nome do tradicionalismo, do organicismo e do ceticismo político. Os tradicionalistas acreditam que a sabedoria política é de natureza histórica e coletiva e reside nas instituições que passam no teste do tempo. Os organicistas acreditam que a sociedade é maior que a soma dos seus membros e tem assim valor muito superior ao do indivíduo. E os cultores do ceticismo político desconfiam do pensamento e teoria aplicados à vida pública, especialmente quando direcionados para ambiciosas inovações.

O antípoda do liberal clássico é naturalmente o “socialista”, que acredita que cabe à sociedade redistribuir o produto do trabalho dos indivíduos e admite coerção política para garantir utopias igualitárias.

Seria ilusório pensar que na classe política brasileira existam posições dessa nitidez. A tribo mais numerosa é daqueles que Nolan chamaria de “liberais de esquerda”. Estes acreditam na liberdade política, mas admitem intervenções econômicas segundo diversas vertentes: a vertente assistencialista, que acredita no governo benfeitor; a vertente nacionalista; a vertente protecionista e, finalmente, a vertente corporativista, subdividida por sua vez em três grupos: os corporativistas empresariais, os sindicais e os burocráticos. Esses diversos matizes colorem a fauna abundante dos falsos liberais.
A morte de Mequior, depois de meses em que corajosamente comeu o pão da tristeza e bebeu as águas da aflição, abre um enorme vazio cultural em nossa paisagem, onde os arbustos são muito mais numerosos que as árvores.

Agora, na tristeza desse vazio, só nos resta parafrasear Manuel Bandeira. “Cavalinhos andando. Cavalões comendo. O Brasil politicando.” José Guilherme morrendo. E tanta gente ficando.

Rio de Janeiro, maio de 1991

Para ler mais: folha.uol.com.br

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