Keynes e os vermelhos


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Por Ralph Raico (Mises Brasil),

O terceiro e último volume da celebrada biografia de Keynes, escrita por Robert Skidelsky, John Maynard Keynes: Fighting for Britain, 1937-1946 (New York: Viking Press, 2001), acaba de ser publicada, para regozijo da crítica. Assim como seus predecessores, este volume não faz qualquer menção aos elogios indiscriminados feitos por Keynes à Rússia stalinista em 1936, apesar de eu mesmo ter enviado ao professor Skidelsky uma carta sobre o assunto – à qual ele graciosamente respondeu.

Agora já está claro que ele se recusa a lidar com esses vergonhosos comentários feitos por seu herói. Assim, para todos os efeitos práticos, as palavras lisonjeiras proferidas por Keynes em relação ao regime stalinista foram jogadas no buraco orwelliano da memória, para nunca mais reaparecerem na literatura.

Já é uma visão difundida no mundo acadêmico que John Maynard Keynes foi um exemplo de liberal-clássico, na tradição de Locke, Jefferson e Tocqueville.

Assim como esses homens, é comumente aceito que Keynes foi um defensor sincero, e até mesmo exemplar, de uma sociedade livre. Se ele diferia dos liberais clássicos em alguns pontos óbvios e importantes, era simplesmente porque ele tentou modernizar as idéias liberais essenciais para que elas pudessem se adaptar às condições econômicas de uma nova era.

Mas se Keynes foi realmente esse modelo de defensor de uma sociedade livre, como explicar seus comentários peculiares, em 1933, apoiando, ainda que com reservas, os “experimentos” sociais que estavam ocorrendo naquela época na Itália, na Alemanha e na Rússia? E o que dizer sobre seu estranho prefácio para a versão alemã da Teoria Geral, em que ele escreve que sua abordagem sobre política econômica é muito mais apropriada para um estado totalitário, como aquele gerido pelos nazistas, do que para a Grã-Bretanha, por exemplo?

A teoria da produção como um todo, que é o que este livro tenciona oferecer, se adapta muito mais facilmente às condições de um estado totalitário, e não às condições de livre concorrência e uma grande medida de laissez-faire.

Os defensores de Keynes tentam minimizar o significado dessas declarações, explorando certas ambigüidades. Mas nenhum deles, até onde sei, jamais se preocupou em confrontar um pronunciamento bastante ambíguo feito por Keynes. Esse pronunciamento apareceu em uma breve conversa na estação de rádio da BBC, em junho de 1936, no programa “Books and Authors”, e pode ser encontrado no volume 28 da sua obra Collected Writings, pp. 333-34.

Nessa conversa, Keynes concentra a maior parte do seu tempo falando sobre um livro, recém-publicado e maciçamente volumoso, escrito por Sidney e Beatrice Webb. O livro se chamava Soviet Communism. (A primeira edição tinha o subtítulo: Uma Nova Civilização?; nas edições posteriores, o ponto de interrogação foi descartado.)

Como líderes da Sociedade Fabiana, os Webbs já vinham trabalhando há décadas para implantar o socialismo na Grã-Bretanha. Na década de 1930, eles viraram propagandistas entusiásticos do novo regime da Rússia Comunista – nas palavras da própria Beatrice, eles tinham “se apaixonado pelo Comunismo Soviético”. (O que ela chamava de “paixão”, o sobrinho deles, Malcolm Muggeridge, rotulou de “adulação enlouquecida”).

Durante uma visita de três semanas que fizeram à Rússia, onde, Sidney gabava-se, eles foram tratados como “um novo tipo de realeza”, as autoridades soviéticas forneceram-lhes todos os fatos e números para o livro. Os comunistas ficaram muito satisfeitos com o resultado final. Na própria Rússia, esse livro Soviet Communism foi traduzido, publicado e promovido pelo regime; como declarou Beatrice: “Sidney e eu nos tornamos ícones na União Soviética”.

Desde quando apareceu pela primeira vez, Soviet Communism tem sido visto como o melhor exemplo da ajuda e do conforto proporcionado pelos camaradas letrados ao estado de terror stalinista. Se Keynes fosse um liberal e um defensor de uma sociedade livre, seria de se esperar que sua análise fosse uma severa repreensão ao livro. Mas ocorreu exatamente o oposto.

Em sua conversa, Keynes declara que Soviet Communism é um livro “que todos os cidadãos sérios fariam bem em ler”. E tem mais:

Até recentemente, os eventos na Rússia estavam ocorrendo rápido demais e a lacuna entre as profissões listadas nos papéis e as realizações reais era grande demais para que um relato adequado fosse possível. Mas agora esse novo sistema já está suficientemente cristalizado para ser analisado. O resultado impressiona. Os inovadores russos já passaram não apenas do estágio revolucionário, mas também do estágio doutrinário.

Pouco, ou nada, do que está em voga tem alguma relação especial com Marx e o marxismo de maneira a ser uma forma diferenciada em relação aos outros sistemas de socialismo. Eles estão comprometidos com a vasta tarefa administrativa de fazer com que um arranjo completamente novo de instituições econômicas e sociais funcione suavemente e com êxito em um território que é tão extenso que cobre um sexto da superfície terrestre do mundo. Os métodos ainda estão mudando rapidamente em resposta à experiência. A maior escala de empirismo e experimentalismo jamais tentada por administradores altruístas está em operação. Enquanto isso, os Webbs nos permitiram ver a direção à qual as coisas aparentam estar se movendo e o quão longe já chegaram.

A Grã-Bretanha, segundo Keynes, tem muito o que aprender com o trabalho dos Webb:

Isso me deixa com um forte desejo e uma grande esperança de que nós, nesse país, possamos descobrir como combinar uma disposição ilimitada para experimentar com mudanças nas instituições e métodos políticos e econômicos, ao mesmo tempo em que preservamos o tradicionalismo e um tipo de conservadorismo cauteloso, que seja próspero em tudo que tenha a experiência humana por trás, em cada ramo do sentimento e da ação.

Note, casualmente, o recuo e a inconsistência premeditada típicas de grande parte da filosofia social de Keynes – uma “disposição ilimitada para experimentar” deve ser combinada com “tradicionalismo” e um “conservadorismo cauteloso”.

Já em 1936, ninguém mais dependia da propaganda enganosa dos Webbs para obter informações sobre o sistema stalinista. Eugene Lyons, William Henry Chamberlin, o próprio Malcolm Muggeridge e outros já haviam revelado a repugnante verdade sobre o sepulcro governado pelos “administradores altruístas” de Keynes.

Qualquer um disposto a ouvir poderia se informar dos fatos relativos à penúria aterrorizante do início dos anos 1930, ao vasto sistema de campos de trabalho forçado, e à miséria quase que geral que se seguiu à abolição da propriedade privada. Para aqueles que não estavam cegados pela “paixão”, não foi difícil perceber que Stalin estava erigindo o modelo de estado-assassino do século XX.

Nos comentários de Keynes, e na ausência de qualquer consideração a respeito deles entre seus devotos, vemos mais uma vez esse bizarro código moral que Joseph Sobran vive denunciando. Se um escritor famoso tivesse dito coisa similar sobre a Alemanha nazista em 1936, seu nome estaria fétido até hoje. No entanto, por mais diabólicos que os nazistas viriam a se tornar, em 1936, suas vítimas totalizaram uma pequena fração das vítimas do comunismo.

O que explica o elogio de Keynes ao livro dos Webb e ao sistema soviético? Há poucas dúvidas que o grande motivo é o sentimento que ele compartilhava com os dois líderes fabianos: um profundo e inveterado ódio à busca pelo lucro e à ação de ganhar dinheiro. De acordo com a amiga e camarada fabiana Margaret Cole, era de uma maneira moral e espiritual que os Webbs encaravam a Rússia Soviética como “a esperança do mundo”. Para eles, o “mais estimulante” de tudo era o papel do Partido Comunista, que, segundo Beatrice, era uma “ordem religiosa”, engajada em criar uma “Consciência Comunista”.

Já no ano de 1932, Beatrice anunciou: “É por acreditar que é chegado o dia para a mudança de um sistema de egoísmo para um de altruísmo – como a mola principal para a vida humana – que eu sou comunista”. No capítulo sobre “Em Lugar do Lucro”, no Soviet Communism, os Webbs divagam entusiasmadamente sobre a substituição dos incentivos monetários pelos rituais de “humilhar o pecador” e pela auto-crítica comunista.

Até quase o fim de sua vida, em 1943, Beatrice ainda estava louvando a União Soviética por “sua democracia multiforme, sua igualdade de sexo, classe e raça, sua produção planejada para o consumo comunitário, e acima de tudo, por sua penalização da busca pelo lucro”.

Quanto a Keynes, sua animosidade em relação à motivação financeira da ação humana virou uma obsessão. Ele via o esforço para se ganhar dinheiro como sendo “o problema ético central da sociedade moderna”; e após sua primeira visita à Rússia soviética, ele aclamou a supressão do motivo monetário como sendo uma “tremenda inovação”. Para ele, assim como para Webbs, essa era a essência do elemento “religioso” que eles detectaram e admiraram no comunismo.

Uma característica notável do elogio de Keynes ao sistema soviético é a total falta de qualquer análise econômica. Keynes parecia estar gostosamente ignorante do fato de que poderia existir um problema de cálculo econômico racional sob o socialismo, como já havia sido delineado um ano antes em um volume editado por F. A. Hayek, Collectivist Economic Planning, que exibiu o original ensaio de Ludwig von Mises, “Economic Calculation in the Socialist Commonwealth“, de 1920.

Economistas vinham debatendo essa questão por anos. No entanto, só interessava a Keynes toda a excitação do grande experimento, a impressionante extensão das mudanças sociais que vinham ocorrendo na Rússia soviética sob o comando daqueles “administradores altruístas”.

Isso traz à mente o comentário de Karl Brunner em relação às noções de Keynes sobre reforma social: “Seria difícil alguém imaginar, analisando o material dos ensaios, que um cientista social, mesmo um economista, os tenha escrito. Qualquer devaneador social da intelligentsia poderia tê-los produzido. As questões cruciais jamais foram encaradas ou exploradas”.

Não, Keynes não foi um “exemplo de liberal”, mas sim um estatista e um apologista ocasional dos regimes mais cruéis do século XX. Seus comentários bem peculiares, principalmente sobre a Rússia soviética, quando anexados à sua teoria econômica de intensificar o estado e à sua visão utopicamente estatizante, deveriam frear aqueles que tão resolutamente inscrevem-no nos rankings liberais. Considerar Keynes como talvez “o exemplo de liberal do século XX” só vai levar incoerência a um conceito histórico indispensável.

Fonte: mises.org.br

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