A Lanterna na Popa: Memórias – Capítulo I


Roberto Campos (1917 - 2001)

Roberto Campos (1917 – 2001)

“Mas a paixão cega nossos olhos,
e a luz que a experiência nos dá é a
de uma lanterna na popa, que ilumina
apenas as ondas que deixamos para trás.”

SAMUEL TAYLOR COLERIDGE (1772-1834)

Por Dennys Andrade,

Uma das grandes alegrias de poder trabalhar em projetos de expansão ou de aquisição de outras redes de supermercados é a possibilidade de se viajar Brasil afora. Para os lugares mais longínquos – prósperos ou paupérrimos, litoral ou interior, na sufocante vastidão amazônica, no calor do sertão nordestino ou nas gélidas serras gaúchas – lá estou eu. Seja visitando um concorrente ou analisando o potencial de, quem sabe, uma futura loja. A oportunidade de encontrar pessoas e lugares os quais eu não conheceria atrás de um balcão ou em um escritório é fantástica. É a realização do geógrafo, que toca e sente o seu mundo além dos livros ou das imagens.

Após anos viajando e com a saudade majorada pelo amor dos quatro corações que me aguardam em casa, arrefeci bem a minha paixão andarilha, contentando-me com poucas e rápidas ausências, sempre que a equipe não dá conta sozinha do trabalho. E, nestas escapadas paulistanas, criei o hábito de escarafunchar os sebos locais atrás de alguma coisa que valha os parcos merréis que me sobram nos bolsos. Nestas peneiradas, encontrei um raro exemplar da primeira edição, em volume único, de A Lanterna na Popa: Memórias, de Roberto Campos. Obra fundamental, dificílima, tanto de encontrar como de digerir. O exemplar de 1994 e com anotações de revisão gramatical, tem infinitas 1.417 páginas. Algo sem magnitude parelha desde a leitura, alguns anos atrás, do excelente Mao: A história desconhecida, de Jung Chang e Jon Halliday, de quase mil páginas. Tão impressionantes e elucidativas quanto a sua largura.

Entusiasmado com o novo objetivo – compreender as agruras de um defensor do liberalismo “pregando no deserto” no auge do dirigismo estatal – eu não havia ainda sido capaz de retirar o exemplar da estante. Foram duas semanas corridas onde, as duas ou três horas diárias livres, foram monopolizadas por uma fofura de olhos azuis, por dois pestinhas bagunceiros e pela morena maravilhosa. Agradecido (irônico rs) pela “balada tecno” surpresa, na empresa vizinha e suas “costas quentes”, pois ainda nenhuma viatura deu o ar da graça ou respondeu às centenas de denúncias dos insones condôminos, pude desfrutar da arte literária de Campos e devorar o seu primeiro capítulo. Espero não demorar ano e meio, como Paulo Portinho e, pelas minhas contas, levar não mais que 30 dias para terminá-lo. Quais dias? Não faço a menor ideia.

PREFÁCIO e CAPITULO I
O analfabeto erudito e suas peripécias

Roberto Campos nasceu em 1917, ironicamente, com a eclosão da revolução comunista soviética. Único pantaneiro sem terra dentre os seus primos marxistas cujos pais tinham amplas fazendas, experimentou o que Ludwig von Mises chamou, em A Mentalidade Anticapitalista, de “geração automática de lucros” pelo capital. Um deles, inclusive, acabou proibido de visitar a fazenda do pai, de tanto incitar os peões e boiadeiros a fazerem uma reforma agrária “na marra”, mobilizando aqueles explorados “sem terra” à recuperar o que seria deles por direito. Ambos acabaram desgostosos da esquerda, quase “reaças”.

Acostumado a ser o melhor aluno do seminário e erudito em latim, grego e um pouco de francês, era considerado praticamente um analfabeto, pois o curso seminarisa não era reconhecido oficialmente. Iniciou sua carreira no Itamaraty em 1938, passando em 7° lugar no concurso. Junto com o colega Julio Agostinho de Oliveira, eram os dois “patinhos feios”, eruditos sem diplomas formais. Passou pela seção de Almoxarifado, de Criptografia e Comercial, no auge das vitórias nazistas na segunda guerra. O Itamaraty, à época, inclinava-se ao totalitarismo nazista, que Campos considerava “de direita”. Não foi sem surpresa que, anos depois, seus colegas integralistas viraram praticamente paladinos das esquerdas – diz ele mistificado e, acusado agora, de conservador e reacionário. Tivesse ele considerado a natureza intrínseca do Partido Nacional “Socialista” dos Trabalhadores Alemães de Hitler, não teria dúvidas de que seus colegas nunca haviam mudado de lado.

(Continua, quando puder..)

*

Dennys Caesar de Andrade é geógrafo pela FFLCH-USP, com extensão em Negócios e Comércio pela FGV. Atua na área de Inteligência de Mercado do Grupo Carrefour. Foi um dos fundadores da Corrente Nacional de Filiados do NOVO, o CONFIA.

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