Onde há vontade, há um caminho


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As revoluções inglesas do século XVII (das guerras civis inglesas, passando pela Revolução Gloriosa até a revolta Jacobina) permitiram, pela primeira vez na história humana, condições propícias para a acumulação de capital e inovação tecnológica. Tais condições – proteção da propriedade privada, segurança jurídica e, principalmente, liberdade científica e comercial – somente tornaram-se possíveis com a derrocada da monarquia absolutista inglesa, em 1688.

O Bill of Rights de 1689 garantiu ao Parlamento inglês a prerrogativa da livre expressão, eleições diretas e total autonomia (inclusive na legislação de impostos) em relação ao Rei. A luta contra o autoritarismo, a censura e arbitrariedades, precedida pela marcha dos whiggamores até a instauração dos princípios liberais, iniciou o período mais próspero de nossa civilização, permitindo e abrindo caminho, anos depois, para a Revolução Industrial.

A suplantação do Estado totalitário pela aplicação da lei e da ordem igualitária, permitiu reunir as premissas que levaram os ingleses não só a liderar a Revolução Industrial e consequentes problemas sociais e ambientais envolvidos no processo mas também a desenganar as previsões mais sombrias de corrupção moral, doenças e escravidão em conurbações cada vez maiores e superlotadas, como previsto por William Cobbett.

Em poucas décadas, as associações civis e corporativas já proviam extensas redes de cobertura beneficentes de educação e de saúde, de modo a alcançar a maioria das crianças inglesas e também pressionando pela aprovação das sucessivas “Leis Fabris” (entre 1849 e 1896), de modo a coibir os abusos do trabalho infantil, a limitação de idade e das horas de trabalho, além de garantir o acesso delas ao ensino básico.

A sociedade britânica adaptou-se à revolução Industrial da mesma maneira que se propôs a dar andamento a ela: pela iniciativa privada e associação civil. – Roger Scruton

Não obstante, as nossas cartilhas escolares marxistas persistem na ótica pejorativa de que a Revolução Industrial trouxe riqueza para os burgueses; porém, os trabalhadores viviam na miséria e os trabalhadores, submetidos à remuneração, condições de trabalho e de vida sub-humanas, em oposição ao enriquecimento dos patrões viviam e trabalhavam em condições precárias. Omitem contudo que estas “condições” não foram precedidas por outras melhores, pelo contrário. Se, com trabalho era ruim, piores eram a fome e a miséria absoluta anteriores.

Tais constatações são facilmente comprovadas e desmentem as falácias dos livros escolares, como descrito por Robert Hessen:

“Em 1750, a população na Inglaterra era de seis milhões; era de nove milhões em 1800 e doze milhões em 1820, uma taxa de crescimento sem precedentes em qualquer era. A distribuição etária da população alterou-se significativamente; a proporção de crianças e jovens aumentou acentuadamente. “A proporção desses nascidos em Londres que morriam antes dos cinco anos de idade” caiu de 74,5 por cento em 1730-49 para 31,8 por cento em 1810-29 [1]. Crianças que até então teriam morrido em sua infância, agora tiveram um chance de sobrevivência.

Ambos o aumento populacional e a crescente expectativa de vida desmentem as afirmações dos socialistas e fascistas críticos do capitalismo de que as condições das classes trabalhadoras progressivamente deterioravam-se durante a Revolução Industrial.

É moralmente injusta e ignorante em história a pessoa que culpa o capitalismo pelas condições das crianças durante a Revolução Industrial, visto que, de fato, o capitalismo trouxe uma enorme benfeitoria nas suas condições da época anterior. A origem dessa injustiça foram desinformados, emotivos romancistas e poetas, como Dickens e Sra. Browning; medievalistas fantasiosos, como Southney; escritores de tratados políticos posando de historiadores econômicos, como Engels e Marx. Todos eles pintaram um quadro turvo e rosado de uma “idade de ouro” perdida das classes trabalhadoras, que, supostamente, foi destruída pela Revolução Industrial.”

O sofisma da linha de pensamento marxista dos livros escolares vai além e conclui que “a Revolução Industrial foi resultado das abundantes reservas de carvão mineral e minério de ferro, além da farta mão de obra urbana, grande mercado consumidor e uma classe burguesa com capital acumulado, que podia pagar por estas matérias primas, máquinas e funcionários”. Ignora completamente o papel das revoluções predecessoras e omite deliberadamente a prosperidade e estabilidade resultantes da implantação dos princípios de liberdades civis na Inglaterra.

A fomentação do comércio interno e externo e respectivo acúmulo de capital, a formação de um mercado consumidor, a segurança jurídica que levou ao rápido avanço tecnológico e de maquinário são, antes de tudo, seus frutos e não sua causa. O carvão não sai da terra sozinho, o dinheiro não surge do nada e os camponeses não vão para a cidade sem antes perderem as terras para a lã das ovelhas. Enfim, não é a pena (ou a caneta) que determina o sucesso de uma sociedade, é a sua independência e a sua autodeterminação.

Apesar do curto período – “um século de liberdade econômica e política é suficiente para tornar alguns capitalistas tão formidavelmente ricos que eles já não querem submeter-se às veleidades do mercado que os enriqueceu” – e consequente cerceamento das liberdades, em uma globalização financiada por metacapitalistas como George Soros, através de uma “repressão onipresente e obsediante (…) (que) estende-se até aos últimos detalhes da vida privada e da linguagem cotidiana”, o fato é que o Brasil pouco ou quase nada gozou deste breve período de prosperidade.

Mesmo as incipientes experiências de liberdade social e econômica experimentadas em terras brasileiras tiveram curtíssima duração e também foram resultados exclusivos de iniciativas da sociedade civil organizada, notadamente a pernambucana. Laurentino Gomes cita a viajante inglesa Maria Graham que, em 1821, anotava “o povo do Recife e de suas vizinhanças havia-se embebido de algumas das noções de governo democrático através de seus antigos dominadores holandeses”. Este sentimento liberal floresceu durante o Consulado Nassoviavo (1637 a 1644), quando o povo pernambucano pode experimentar uma inédita liberdade religiosa – incluindo a primeira sinagoga das américas, liberdade comercial – acesso a capital, recuperação de engenhos e implantação do livre comércio (parcial, contra a vontade da Cia das Índias Ocidentais Holandesas*) e liberdade científica – com urbanização, ciência e artes – sem precedentes no restante da colônia portuguesa.

* O livre comércio era um dogma em Amsterdã. Em 1634 o comércio da colônia fora aberto a todos os cidadãos neerlandeses, em detrimento do monopólio privado da Companhia. O conflito aguçou-se entre os dirigentes e os vrijluiden (comerciantes migrados, especialmente de Amsterdã). O historiador Evaldo Cabral de Mello relata em seu livro O Brasil holandês o conflito em torno da definição do regime comercial da colônia, reproduzindo algumas das inúmeras cartas encaminhadas a Mauricio de Nassau:

“Para que se possa promover o comércio, a terra deve ser primeiramente bem cultivada e povoada mediante grandes despesas. E como pode isto acontecer se somente à Companhia e a ninguém mais se deixar a colonização do Brasil? (…) Por que não se há de deixar chamar antes todo o mundo e deixar sobre o ombro dos particulares que quiserem ir, uma vez que tenham meios para trabalhar e correr os riscos, uma boa parte, diremos mesmo, a máxima parte desta pesada tarefa? Não há nenhuma probabilidade de que o Brasil seja melhor povoado e melhor cultivado por poucos do que por muitos.(…)

O que tem feito Amsterdã, entre outras cidades, tão esplêndida senão o grande número de particulares, podendo não somente os holandeses mas os estrangeiros de todas as nações do mundo mover-se e fazer livremente nela o seu comércio?(…) Quanto produziria (o Brasil) então se, sendo franco aos particulares e ao comércio, estivesse repleto de gente e crescesse em frutos e novidades? Pelo decurso do tempo, o rendimento subiria (…) a prosperidade dos moradores atrairia outros para si e deste modo, se a Companhia esperasse três ou quatro anos, esta curta paciência de sua parte seria recompensada com grandes riquezas.”

Um século e meio depois de expulsar os invasores holandeses, imbuídos em seu nativismo, os pernambucanos voltariam sua revolta contra a voracidade fiscal e as gastanças desmesuradas da corte de D. João VI, culminando com a Revolução Pernambucana de 1817.

Em rápida campanha, tomaram a capital e estabeleceram a nova “República”. Foram convocadas eleições gerais e uma assembleia constituinte, que estabeleceu a separação entre os poderes Legislativo, Executivo e Judiciário, a liberdade religiosa, a liberdade de imprensa e a abolição dos impostos sobre o comércio. Apesar da sua brevidade foi “a mais espontânea, a menos desorganizada e mais simpática das nossas revoluções”, segundo o historiador Manoel de Oliveira Lima, citado por Laurentino Gomes, em “1808”. Embora tenha sido reprimida, a bandeira da revolução é hoje o estandarte oficial do orgulhoso Estado de Pernambuco.

“As organizações de uma sociedade – as empresas, associações de classe, sindicatos, órgãos públicos e escolas – surgem em consequência das oportunidades criadas pelo arcabouço institucional, e evoluem para aproveitar as vantagens oferecidas por estas instituições” – Douglas North

Citando Douglas North em seu livro Ou Ficar A Pátria Livre, Roberto Motta nos fornece subsídios para que possamos entender a persistência, apesar das tentativas dispersas em contrário de, até os dias atuais, termos um sistema econômico e social de baixo desempenho no Brasil, perpetuado pelas dificuldades que temos em decifrar um ambiente complexo e anacrônico, voltado para os interesses de grupos econômicos e de entidades de classe, continuamente adaptados ao modelo atual.

Conforme North, a reprodução deste modelo mental social “produzirá ideologias que não apenas racionalizarão a estrutura da sociedade como também explicarão seu baixo desempenho culpando terceiros, e criando políticas que reforçam os incentivos e organizações existentes”. Motta complementa, citando a Teoria de Dependência, que explicaria o subdesenvolvimento latino americano como resultado da exploração pelos países desenvolvidos como o seu maior exemplo.

Em meados da década de 2000, Olavo de Carvalho respondia ao comentário de um ouvinte em seu canal True Outspeak. Perguntado sobre como superar o governo socialista instaurado no Brasil ele fora enfático: “Apenas com a completa desmoralização daqueles” seria possível alterar aquela situação. Tal processo, até então improvável, teve seu início em 2005 com a delação, de Roberto Jefferson, da compra sistemática de apoio do Congresso pelo governo do Partido dos Trabalhadores, do então Presidente Luis Inácio Lula da Silva. Sua popularidade messiânica foi suficiente para salvar-lhe o mandato e, inclusive, para fazer a sua sucessora, reeleita em 2014 por estreitíssima margem de votos. Contudo, o processo de desmistificação e desmoralização da esquerda, iniciado há quase uma década, avançava irrefreável.

Em 2006, o PT reelegeu Luis Inácio com 58 milhões de votos, contra 37 milhões de seu adversário. Desde então, as vitórias tornaram-se cada vez mais difíceis e viram a rejeição avançar exponencialmente. A diferença de 19 milhões de votos em 2006 havia caído para apenas 12 milhões em 2010 e ficou em esquálidos 4 milhões de votos em 2014. Tal foi a destruição de sua reputação pós-eleitoral e pós-impeachment, com o fim das mentiras de campanha e ocultação da realidade econômica desastrosa que seus candidatos em 2016 chegavam ao extremo de evitar a cor vermelha e o número 13 em suas campanhas municipais. O resultado foi uma queda de 60% no número de votos, 59% no número de prefeituras e de surpreendentes 86% no volume de receitas orçamentárias administradas pelo Partido dos Trabalhadores.

A desmoralização estava completa.

“Vinha eu para a escola quando vi este belo presente. Pensei: ‘Porque comprá-lo, por que não comprá-lo, porque comprá-lo, por que não comprá-lo?’ Comprei-o-o! Aceite, é de coração, sem o menor interesse…” – Personagem Armando Volta, subornando o professor Raimundo, que acaba aceitando e lhe passando a resposta correta.

A refutação moral da experiência socialista/fabiano é imprescindível mas não é suficiente. A instauração dos princípios liberais deve partir da e para a sociedade civil. Cabe exclusivamente à esta por em prática a substituição de todo o software mental “progressista” impregnado na sociedade brasileira: da terceirização das culpas, da vitimização dos criminosos, da benevolência com as práticas erradas, quase que “impostas” à população pelo próprio funcionamento do Estado. Comportamentos  perpetuados diariamente pela televisão em todos os lares, seja através do programa da Fátima Bernardes ou dos quadros humorísticos inocentes, como a Escolinha do Professor Raimundo.

A sociedade brasileira já percorreu a metade do caminho. Com a “refutação esquerdista” a famosa maioria deixou de ser silenciosa e o resultado foi a quebra do monopólio intelectual e midiático das turbes barulhentas. Fizemo-nos representar nas universidades e nos Centros Acadêmicos, estamos nas rádios e também nos programas jornalísticos. A sociedade civil uma vez organizada em propósito, seguirá sua inexorável trajetória de autodeterminação, elegendo seus representantes e finalmente sendo senhora de seu próprio destino e felicidade. E a razão única e primordial desta certeza é que – onde há vontade, há um caminho. E ao Estado, viciado como tal, não caberá um papel top-down neste processo vindouro, somente a aplicação resoluta da lei e da ordem igualitária.

***

Dennys Caesar de Andrade é geógrafo pela FFLCH-USP com extensão em Negócios e Comércio pela FGV. Atua na área de Inteligência de Mercado do Grupo Carrefour. Foi um dos fundadores da Corrente Nacional de Filiados do NOVO, o CONFIA.

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