O próximo filme que não verei.


paulo-lazaro

Raramente leio os cadernos de entretenimento dos jornais que assino. Não por menosprezar a matéria, mas por ausência de tempo hábil em relação à outras prioridades.

Tempos difíceis.

Fato é que ontem me interessou no Caderno 2 do Estadão uma chamada sobre um lançamento de inéditas do Adoniran Barbosa, afinal viraram moda essas “descobertas” post mortem.

Lendo o encarte acabei encontrando também uma crítica ao filme que será lançado ainda essa semana, intitulado “Sob pressão”, e que divaga sobre a “realidade” de um médico de um hospital que presta atendimento ao SUS.

O texto, como o filme, não têm pretensão de se aprofundar em políticas de saúde, mas após dissertar sobre pautas comportamentais e dilemas éticos relativos ao personagem principal, o cineasta solta a seguinte frase:

“Para mim, não é um tema social. É uma questão de estado, a Saúde. Temos hospitais e políticas públicas que são referências para todo o mundo. Então, por que o SUS está falido e as pessoas morrem na fila de atendimento?”

Lembrei imediatamente de um estudo brasileiro sobre o SUS publicado em uma das revistas médicas de maior impacto mundial, a New England Journal of Medicine (NEJM).

Nesse artigo o autor discutia sobre os avanços na saúde conquistados após quase 30 anos de implantação do SUS, e que apesar de alguns percalços,  o modelo caminhava muito bem, obrigado.

Tanto o cineasta quanto o autor trabalham de maneira míope o tema que hoje é a preocupação de mais da metade da população brasileira.

O cineasta por lançar um olhar muito próximo e estereotipado da linha de frente, do dia a dia de um médico num pronto-socorro caótico, próprio das narrativas blockbuster; e os autores do estudo do NEJM, por venderem um SUS mais ideológico do que funcional, o que atraiu para seu artigo inúmeras críticas de colegas que vivem justamente a realidade do sistema eufemizada no artigo.

O compromisso do primeiro ficou no entretenimento e num questionamento solto e descomprometido, mas que mostra exatamente a desconexão da realidade do segundo.

Tá aí, não é que talvez esse filme possa realmente mostrar algo sobre a realidade da saúde brasileira?

É ver pra crer, ou não.

*
Paulo Lázaro de Moraes é médico formado pela PUC-Campinas, Doutor pela Universidade Federal de São Paulo. Dedica-se a estudos na área de oncologia / radioterapia e de saúde pública.

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