Donald Trump derrotou a mídia. Mas a mídia já tinha derrotado o jornalismo


Por Eduardo Wolf (Estadão),

Quando governos populistas autoritários de esquerda chegaram ao poder na América Latina ao longo das últimas duas décadas, seguiu-se efetivamente o seguinte:

(i) cerceamento das liberdades individuais;
(ii) encarceramento de políticos oposcionistas arbitrariamente;
(iii) cerceamento da liberdade de imprensa, quando não pura e simples censura;
(iv) gradativa extinção de um sistema de justiça livre e independente;
(v) perpetuação no poder por meios ilegítimos, como manipulação de distritos eleitorais, perseguição a candidatos rivais, etc.
(vi) assassinato pura e simples de manifestantes (caso da Venezuela).

Capa do jornal americano New York Times

Capa do jornal americano New York Times

No Brasil, com exceção da revista Veja e dos editoriais doo Estado de São Paulo, praticamente nenhum veículo da grande imprensa chamou pelo nome – ditaduras populistas de esquerda – esses regimes; praticamente nenhum veículo da grande imprensa tratou o descalabro desses regimes como o que eram – formas redivivas folclórico-rançosas do fracassado projeto autoritário da esquerda do século XX; praticamente nenhum comentarista da grande imprensa traçou paralelos das hordas de assassinos chavistas matando pessoas nas passeatas de 2014 com o horror sanguinolento das práticas esquerdistas do século passado. Que dirá denunciar a imensa abjeção que é a existência de partidos políticos como o PT, o PSOL e o PC do B que apoiaram e apóiam esses regimes (hoje, graças a Deus, moribundos).

No entanto, quando Maurício Macri ganhou as eleições na Argentina, a revista Piauí fez longa e assombrosa matéria que começava com um relato de Macri “gritando ao telefone” com a ex-presidente Cristina Kirchner, que teria até “mandado plantar flores amarelas” em homenagem ao vitorioso Macri – de resto descrito na matéria como um perigoso populista a serviço do mercado. Isso, frise-se, no momento em que a Argentina se libertava de um governo corrupto, inepto, autoritário e que caçava a liberdade de imprensa como os filhos de Donald Trump caçam animais selvagens pela África.

Quando o Brexit saiu vitorioso em referendo no Reino Unido, a tônica do comentário jornalístico foi de que estávamos vivendo a ascensão do nazi-fascismo – quando na verdade é o trabalhista Jeremy Corbin que alimenta em seu partido, o Labor, uma feroz militância antissemita e segue tecendo loas, em pleno 2016, ao assasino regime chavista.

Agora, com a vitória de Trump, os enlutados jornalistas-torcedores que deveriam estar fazendo cobertura política pisotearam, em seus comentários, na população “branca sem escolaridade, que não frequenta a universidade e não mora em Nova York” (exatamente como fez a Carta Capital no Brasil em sua mais recente edição, insultando o povo brasileiro por não pensar como Mino Carta e Marilena Chauí), ressuscitaram Mussolini e, quase sem discrição, decretaram o fim do mundo – os mesmos jornalistas que jamais teriam coragem de chamar Chávez ou Erdogam de ditador.

Donald Trump não atacará as liberdades individuais e as garantias constitucionais, não encarcerará políticos oposicionistas, não promoverá cerceamento das liberdades da imprensa, não acabará com o judiciário independente nos Estados Unidos e não perseguirá – muito menos eliminará fisicamente – adversários políticos. E, no entanto, nossos comentaristas políticos, especialmente os televisivos, babaram um pânico infantil da ameaça que ele representa.

Esse comportamento que eu descrevi acima é idêntico em sua natureza na grande imprensa americana ou europeia, com pequenos ajustes de “contexto”.

Esse comportamento da mídia e do circuito intelectual e cultura ajuda a explicar por que Donald Trump venceu as eleições com o voto do trabalhador americano comum, aquele sujeito que a rapaziada da imprensa bacana e da academia descolada diz que defende, mas que no fundo despreza.

Donal Trump derrotou a mídia. Mas a mídia já tinha derrotado o jornalismo há tempos.

Fonte: cultura.estadao.com.br

 

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