Pedro sairia do grupo do Whatsapp dos Apóstolos e ficaria postando indiretas no Facebook


cultura-do-mimimi

 

Cultura do “mimimi”

Por Jefferson Heitor, 

MI.MI.MI (sem gênero, do latim mimadus homini), adj.; subst.; adv. – Choramingado, medinho, vitimismo (ex.: Pessoa vítima de todas as injustiças do mundo), covardia, tem desculpa para tudo, chato, politicamente correto, cheio de direitos, arrogância disfarçada, falsa humildade, cômodo.

Vivemos tempos difíceis, tempos de crise, e não me refiro à crise econômica, mas a uma muito maior e crônica. Somos a geração dos filhos e netos de Woodstock, educados sobre a égide da “liberdade” e da “diversidade”, criados à Toddy aprendemos a fazer revolução cantando músicas em nossos quartos fechados, templos da nossa liberdade, defendendo o direito de quem não conhecemos em detrimento de um opressor sentado na sala da nossa casa. Colocamos, revoltados, como proteção de tela do nosso smartphone uma foto do Che, decoramos jargões, lemos meia dúzia de livros selecionados, somos anarquistas pagando o melhor cursinho para passar naquele concurso público tão desejado.

Defendemos todos de tudo. Temos opinião sobre tudo e sobre todos.  Todos quem? Tudo o quê? Apontamos o dedo veementemente frente ao menor resquício de preconceito sem ao menos ter um conceito formado. Na verdade, defendemos nosso direito de nos defender de tudo e de todos, sem saber quem/o quê são, como aquela criança que nunca provou brócolis, mas já não gosta. Por quê? Porque ela tem o direito de não gostar, ora bolas. Quem ousa interferir na “liberdade” dessa criança mesmo que a ame e queira seu bem?

Somos ilhas interligadas por cabos de fibra ótica, isolados, mas em contato constante com todos e com tudo (os mesmo dos quais me defendo, por isso me isolo). Nunca antes pudemos conhecer tanta gente, de tantos lugares e culturas diferentes como hoje, nunca uma pessoa teve tantos “amigos” e “seguidores”, nem Jesus no auge de sua pregação conseguiu tantos follows, tudo mentira, fantasia, uma verdadeira matrix. Os quartos fechados com som alto da década de 1990 deram lugar ao silêncio, ao fone de ouvido, à tela brilhante, a um muro invisível mais intransponível que a porta fechada que outrora se mantinha como símbolo de rebeldia. Não nos reconhecemos, nem uns aos outros nem a nós mesmos. Não olhamos no olho, não choramos na frente do outro, status nunca teve um significado tão amplo, não reconhecemos os próprios limites, nossas fraquezas, não admitimos nossos erros, e quando evidentes, justificamos, não pedimos perdão, nos escondemos em uma falsa humildade com afirmações cômodas como: “eu sou fraco”; “todos precisamos disso”; “eu não sou o único”; “você está sendo injusto”. Não compreendemos, mas exigimos isso dos outros, sempre, mesmo quando estamos errados.

Há uma passagem no Evangelho de Mateus que sempre me vem a memória quando me deparo com esses “mimimis”, nela se diz: “Pedro então começou a interpelá-lo e protestar nestes termos: Que Deus não permita isto, Senhor! Isto não te acontecerá! Mas Jesus, voltando-se para ele, disse-lhe: Afasta-te, Satanás! Tu és para mim um escândalo; teus pensamentos não são de Deus, mas dos homens! ” (Mateus 16, 22-23). Agora vamos imaginar esse diálogo permeado de “mimimi”: “Pedro então começou a interpelá-lo e protestar nestes termos: Que Deus não permita isto, Senhor! Isto não te acontecerá! Mas Jesus, voltando-se para ele, disse-lhe: Pedro, vamos alí conversar. Olhe, não quero ti expor, por isso te chamei aqui, eu gostaria de dizer uma coisa para você, mas não me entenda mal, por favor! Como você está? Dormiu bem? – Pedro o interrompe – Diga logo, Senhor! Dê logo a paulada! O que foi que eu fiz? – Jesus continua – Calma, Pedro. Não quero ti acusar. Eu só acho (mesmo eu sendo Deus e nunca errando) que o que você falou alí atrás não foi muito legal, assim, eu acho que não foi de Deus. – Pedro fica vermelho – Como assim, Jesus?! Eu só quero teu bem! Há seis versículos atrás você disse que eu era Pedro e sobre mim Tu edificaria a tua Igreja e agora já tá dizendo que o que eu falo não é de Deus? Pois pode procurar outra pedra, beleza? Você não quer uma pedra que não seja de Deus, né? Põe o Iscariotes, pô! – Jesus respira fundo – Não, Pedro, não é bem assim – Pedro continua – Poxa Jesus, você tá muito sem caridade, você não sabe o que eu estou passando, nem parece estar preocupado (snif). ” Com certeza, Pedro sairia do grupo do Whatsapp dos Apóstolos e ficaria postando indiretas no Facebook esperando Jesus vir falar com ele (talvez ele até escrevesse um texto em um blog), afinal, foi Jesus quem faltou com a caridade com ele. O Evangelista Mateus teria muito mais trabalho, pelo menos uns dois volumes contando a história de como Pedro voltou a falar com Jesus.

Cômico, se não fosse trágico. Você que está lendo pode pensar: “Calma Jefferson, Jesus é Deus, eu não. ” Jesus é o modelo do homem perfeito, do cristão autêntico, se não é para ser como Cristo, para quê ser cristão? A quem nos assemelharemos? O que seria, então, ser santo? Nós somos a referência de nós mesmos? Não. O que fez São Paulo quando afirmou “Tornai-vos os meus imitadores, como eu o sou de Cristo. ”? (1Cor 11, 1). Como cristãos essa é a nossa meta! Imitar a Cristo, ser como Ele, ser outro Ele, para que os outros nos imitem. Os falsos humildes não admitem isso. É comprometimento demais, exigente demais, é necessário deixar muitas coisas e abraçar outras tantas, é mais fácil dizer: “Eu sou fraco”; “Eu não consigo”; “Eu sou assim mesmo”.

“Mas Jesus disse à Madalena: ‘Eu não ti condeno”, você pode dizer. É verdade, tampouco condenou a Pedro, mas a este a pedagogia é de maior firmeza e de uma exigência de uma vivência própria da missão que lhe era confiada. Imagina se Pedro não entendesse o mistério da Cruz, o que seria da Igreja?  Madalena naquele momento não precisava de correção, mas de acolhimento, que acolhe o pecador, sempre, seja ele prostituta ou apóstolo, mas nunca o pecado. O problema é que nós nos acomodamos a ser Madalena no momento em que encontrou o Senhor, não queremos crescer, logo, queremos sempre o acolhimento e nunca a correção, não vemos nesta última um ato de amor de quem deseja que saiamos do erro. Amor parece que virou cumplicidade, aceitar tudo, sempre. Definitivamente, isso não é amor. Jesus amou a Pedro quando gritou com ele, foi caridoso com ele, assim como foi com Madalena.

Não queremos crescer.

Nossa sociedade já é a segunda geração do pós-guerra, somos superprotegidos, os mais capazes, sempre elogiados, criados em uma bolha, estimulados a seguir sonhos, por mais absurdo que sejam, e não deixar ninguém nos dizer que não podemos. Não queremos ser adultos, os compromissos nos estressam, o casamento é “uma instituição falida” pois não há mais fidelidade, não há para sempre, palavra, caráter, o eterno se perdeu no agora. Quando somos jogados na vida real não sabemos lidar com as frustrações, com as derrotas, com o outro, com o diverso (o verdadeiramente diverso, o diferente de mim). O maior problema das empresas é a dificuldade de se trabalhar em equipe, estabelecer metas, prazos e cumpri-los. Queremos ter poucos filhos, porque filho é caro, porque vai interferir na minha vida, vai me cansar, vai alterar o meu corpo, vou engordar, ter estrias, o peito vai cair, vou ganhar menos, vou gastar menos comigo mesmo, vou dormir menos, ou seja, os mesmos pensamentos de quando tínhamos 15 anos. Nós, homens, não somos mais cavalheiros, não abrimos a porta, não deixamos elas passarem na frente, sentarem no nosso lugar, se protegerem da chuva, estamos na fase do “meninos contra meninas”, e as mulheres não permitem, muitas vezes, aos homens serem homens quando alguns tentam. A virilidade virou machismo, a feminilidade virou fraqueza e ninguém quer ser enquadrado nesses estereótipos.

Podemos ser incoerentes, com pouca vida interior, cheios de discursos e vazios de vivências, podemos ser verdadeiros fariseus hipócritas, só não podemos ser mal-educados. Quando vemos algo errado silenciamos para não gerar conflito. Isso é educado, mas não é correto, definitivamente. Isso é uma bomba relógio que quando estoura vemos que seria muito melhor correr o risco de desarmá-la do que simplesmente esperar ela explodir. É muito melhor ser chamado de grosso e ignorante aqui, do que de omisso e covarde depois.

Gostaria de citar um texto do Luís Fernando Veríssimo que demonstra um pouco do que conversamos:

“O rouge virou blush. O pó-de-arroz virou pó-compacto. O brilho virou gloss. O rímel virou máscara

A lycra virou stretch. Anabela virou plataforma. O corpete virou porta-seios. Que virou sutiã. Que virou silicone.

A peruca virou aplique… interlace… megahair… alongamento. A escova virou chapinha.

Problemas de mo…ça viraram TPM.

Confete virou MM’s

A crise de nervos virou estresse.

A tristeza agora é depressão.

O espaguete virou miojo

A paquera virou pegação

O LP virou CD. A fita de vídeo é DVD. O CD já é MP3.

É um filho onde eram seis. O álbum de fotos agora é mostrado por e-mail.

O namoro agora é virtual. A cantada virou torpedo. E do ‘não’ se tem medo.

O break virou street. O samba, pagode. O carnaval de rua virou Sapucaí. O folclore brasileiro, halloween.

Lobato virou Paulo Coelho. Caetano virou um pentelho. Elis ressuscitou em Maria Rita. A AIDS virou gripe.

A bala antes encontrada, agora é perdida. A violência está maldita.

O professor agora é facilitador. As lições já não importam mais.

A guerra superou a paz. E a sociedade ficou incapaz. De tudo. Inclusive de notar essas diferenças. ”

Se você se identificou com o texto e de alguma forma de ofendeu, saiba, o texto não foi escrito para você, mas se a carapuça serviu aproveite para refletir um pouco, seja honesto, pare de “mimimi”!

Jesus, manso e humilde de coração, fazei o nosso coração semelhante ao Vosso!

Shalom!

Fonte: terramissao.blogspot.com.br

Anúncios

Deixe seu comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s