A contradição do “voto do pobre”


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Por Leandro Monteiro,

Uma das primeiras contradições que me recordo de ter percebido no pensamento da esquerda, ainda na adolescência, tem origem na relação entre o voto e as classes sociais. Lembro-me que, em um determinado ano, nosso professor de geografia, em um aparte (bem demorado, hoje vejo), entendeu que, mais útil do que explicar as diferenças entre rochas metamórficas e sedimentares, deveria esclarecer aos alunos como a burguesia dominante controla as eleições.

Segundo a lógica, era interesse da elite burguesa manter o proletário (maioria da população) pobre e sem instrução, pois assim era mais fácil direcionar seu voto — fosse por meio de intimidação (voto de cabresto) ou por compra (troca de voto por dentaduras, vagas em creche, cestas básicas, etc.). Era assim, dizia ele, que os Coronéis, antes, e os capitalistas, agora, mantinham há décadas seu poder político.

Ocorre que naquele mesmo ano, houve eleições municipais, nas quais o candidato da esquerda — apoiado pela então titular do cargo (também de esquerda) — não saiu vitorioso. Contudo, teria tido, segundo as pesquisas, grande votação nas faixas de renda mais baixa e com menor escolaridade, o que significava — segundo os políticos na televisão e meu professor de geografia — uma clara demonstração da “classe trabalhadora” de sua insatisfação com a dominação da “burguesia opressora”.

Acho que ambas as ideias foram apresentadas num espaço de tempo tão curto que ficou impossível — até mesmo para um jovem, sistematicamente submetido ao discurso socializante — não perceber a evidente contradição: ora, primeiro o voto do pobre com baixa educação era algo (por lógica) manipulado, trocado por necessidades básicas de sobrevivência e conforto; em questão de dias, contudo, havia se convertido em altruística arma de batalha contra o status quo. Como ocorreu tamanha conversão?

Esta talvez, em minha história, tenha sido a “mãe” das contradições, que me levaram a questionar diversas outras “verdades” que me haviam sido ensinadas durante minha formação. Por ela, serei eternamente grato.

Por falar nisso…

Por falar nisso, os pseudo-analistas que permanecem tentando qualificar a “qualidade” do voto de um grupo com base no resultado de sua escolha estão tendo um trabalho ingrato este ano em São Paulo.

Segundo a última pesquisa do IBOPE (23-25/09), o progressista Fernando Haddad atinge seu melhor índice de intenção de votos entre os eleitores da faixa mais rica, o que acontece igualmente com João Dória, “o” capitalista. Entre os da faixa mais pobre, por seu turno, encontram seus melhores índices a até-ontem-petista Marta Suplicy e Celso Russomanno, que dispensa qualificadores.

Vão ter trabalho para decidir se, afinal, “pobre sabe ou não votar” — se continuarem a insistir na bobagem dessa pergunta.

*

Leandro Monteiro, advogado e bacharel em Relações Internacionais, ambos pela PUC-SP, e mestre pelo Programa Santiago Dantas (UNESP/UNICAMP/PUC-SP). Atua primordialmente na área do agronegócio. É liberal.

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