Foi-se o Bonde, fica a Liberdade


Bonde Perdido

 

EDITORIAL 30 DIÁRIOS,

O nascedouro do Partido NOVO, segundo seu próprio presidente, João Amoedo, veio da percepção da proto-falência do sistema de Governo em vigor, em virtude da sua mascarada ineficiência, nas mais variadas facetas. A concepção original do grupo, de atuar via organização politico-partidária teria então, como proposta, levar a eficiência gerencial, os princípios da administração científica, da esfera corporativa (ou micro) para a esfera governamental (macro). A ação política deste novo partido teria como vértice a aplicação dos mesmos princípios dos gerentes e engenheiros que administram as grandes organizações privadas: racionalizar as suas organizações para a sociedade como um todo. O que Yehouda Shenhav (Manufacturing Racionalidade: Os Fundamentos de Engenharia da Revolução Gerencial) chamaria de progressismo (ou governo dos iluminados – esquerda mesmo).

“Todo sistema social administrado segundo critérios racionais e hierárquicos é uma organização burocrática. Haverá organizações burocráticas mais flexíveis ou mais
rígidas, mais formalizadas ou menos, mais ou menos autoritárias.[…] Assim, a crítica administrativa, ao afirmar as fontes de ineficiência da organização burocrática, ou que estamos passando para uma fase de organizações pós-burocráticas, na verdade, legitima ideologicamente a burocracia, enquanto poder e dominação que é”.

(BRESSER PEREIRA & PRESTES MOTA, 1980:12-13; 224)

Enquanto a visão liberal da administração pública reduz a utilidade das organizações públicas a finalidades de mercado, quer no sentido macroeconômico, quer no que respeita à avaliação da relação custo-benefício e pretende adequar o equipamento administrativo do Estado às finalidades mínimas do estado de direito, seguindo valores políticos dominantes invertendo a visão de burocracia pública, subvertendo-a à lógica do mercado e posicionando-se contra o Estado, a visão de Estado empreendedor proposta pelo partido NOVO se constitui uma alternativa crítica ao modelo liberal de administração pública minimalista. Baseia-se na prescrição de técnicas originariamente empresariais, tais como reengenharia, gestão da qualidade total, redimensionamento, etc., à gestão de organizações públicas, com um Estado atuante (incentivos, fomentos) e uma administração pública ativista, cujo alcance é, todavia, inspirado por critérios de eficiência empresarial. A ênfase dá-se justamente no aprimoramento da gestão pública e no aumento da eficiência dos sistemas burocráticos.

Já os princípios da visão liberal de administração pública inspiram-se no ideal de intervenção estatal dos economistas clássicos e dos adeptos da chamada teoria da escolha pública (public choice), inspirados na filosofia liberal de Adam Smith e no pensamento econômico da Escola Austríaca do século XIX. Sua abordagem parte de uma imagem altamente negativa da burocracia pública: negligência ao interesse público; excesso de gastos; desperdício; falta de interesse direto do funcionalismo na obtenção de resultados; monopólio de funções; adoção, pelos burocratas, das políticas mais convenientes aos seus interesses próprios; etc. E prescrevem um modelo de modernização baseado na imposição de severos limites à ação pública, numa clara tentativa de conter, não de superar a patologia burocrática que denuncia.

O livro Reinventando o governo, escrito por Osborne e Gaebler em 1992, inaugurou o “Estado empreendedor” como um estilo pragmático de gestão pública, sendo utilizada no programa de governo do partido democrático nas eleições presidenciais de 1992, e posteriormente usada como base para o Government performance results act de 1993 e o programa nacional de desempenho da administração pública (national performance review) durante a administração Clinton-Gore. Esta metodologia empresarial de gestão é, desde sua concepção, a linha mestra do Partido NOVO e não o Liberalismo – a defesa da liberdade individual, nos campos econômico, político, religioso e intelectual, exatamente contra as ingerências e atitudes coercitivas do poder estatal -, muito menos o liberalismo clássico ou Laissez-faire.

Neste sentido, na busca das melhores práticas de gestão e de execução (mão de obra enxuta, especializada, cuja eficiência é medida em termos estritos e recompensados por mérito e produtividade, de modo a reduzir o dispêndio de recursos e equipe) mas sem a visão liberal de atender ao “mercado”, pouco importa se o website do NOVO pouco acrescenta, pois satisfaz o papel de receber novas filiações. Não tem importância a quase inexistência de diálogo entre filiados e núcleos, pois existe o tal do fale conosco, com suas respostas padronizadas. Pelo mesmo motivo, é inútil ou quase indiferente adentrar questões de cunho individuais, como drogas, aborto, armas ou homo afetivas. A casta de gestão, classe seleta de tecnocratas com o conhecimento científico para discernir, é quem determina as “melhores práticas” e delega tarefas para baixo, do modo mais eficiente possível. Aos “trabalhadores” cabe apenas executar as tarefas conforme as instruções, sem a intervenção do pensamento crítico. Aos mesmos, bastam as reuniões mensais onde, ao estilo varejista, palmas estribam àqueles que se esforçam nas Ações de Rua e que trazem mais cadastros de possíveis novos “sócios financiadores” ao projeto. O trabalho e a dedicação destes valorosos voluntários são magníficos, porém a contrapartida do partido em reter os conquistados é nula. Mas a crítica é inválida, pois o negócio da política é demasiado complexo para ser deixada para os pretensiosos amadores bem-intencionados.

O que se observa claramente no partido NOVO é uma divisão do processo político interno, entre o cérebro e a mão de obra, ou entre concepção e execução. O que Rakesh Khurana da Harvard Business School descreve como uma tentativa de aplicar a abordagem de engenharia (normatização e racionalização de ferramentas, processos e sistemas) para a organização política como um sistema. Processo decisório o qual exclui todos os demais do processo político, por tê-las como peças substituíveis, de “pouca confiança (…) nas habilidades, inteligência e experiência das pessoas comuns “. Uma completa dissociação do princípio básico assumido pelo partido de atrair, engajar e tornar o cidadão “sócio” do projeto, a não ser como prosopopeia de uma ação planificada. Tal é a distância do termo liberal e a insignificância do filiado ao partido NOVO e a sua exclusão de toda e qualquer participação decisória interna que este sequer elege seus representantes municipais, quiçá estaduais. Listas são votadas nas Convenções (no caso de existirem chapas diferentes) e os nomes seguem para o veto ou a apreciação do Diretório Estadual (eleitos pelo Nacional), que decidirá sobre os integrantes dos Diretórios Municipais. O livre pensar ou pensamento crítico é praticamente abolido em nome “das melhores práticas”. Não à toa, grandes nomes do atual cenário liberal tiveram rápidas passagens pelo partido, apenas o tempo de realizar as suas contradições.

A ideia de que a compreensão e a tomada de decisão deve ser divorciada do desempenho de tarefas pressupõe uma organização de formato muito rígido, que foca simplesmente na exploração de economia de escalas, e que usa hierarquias organizacionais que parecem ter sido emprestadas de princípios medievais: as ordens são simplesmente seguidas por soldados rasos. Algo tão retrógrado quanto pensar a burocracia pela abordagem gerencial de Frederick Taylor, tal qual “uma solução para clivagens ideológicas, como um remédio de engenharia para a guerra entre as classes.” Basta lembrar os princípios do taylorismo e transmutá-los para a estrutura interna do NOVO:

  • Limitação da liberdade de escolha, pensamento e lideranças (incluindo “projetos pessoais”);
  • Processo seletivo demasiadamente criterioso, amador e dúbio (desqualificações de voluntários dedicados e de fundadores do partido; mesmo padrão de testes para o executivo e legislativo, deferimento de candidatura a cargo executivo com evidente discrepância ideológica, à despeito do rigor aplicado aos demais);
  • Vigilância e constante observação de pré-candidatos e (futuros) mandatários. (O Estatuto prevê a possibilidade de posicionamento pessoal contrário ao voto efetivo, determinado pelo partido. O mesmo dispositivo já seria controle suficiente).
  • Linha de produção, produto único (filiado apenas como reverberador das “melhores práticas”, sem participação nas políticas partidárias e como agente exclusivamente financiador)

Como um partido fundamentalmente baseado em técnicas gerenciais “modernas”, o NOVO já deveria saber que deve pensar além da linha de produção, para superar o estigma de partido de “um dono” e sua casta de “iluminados”. A solução gerencial moderna não depende de uma figura superdotada (na forma de um super executivo da iniciativa privada que surge e salva a cidade) mas, de  uma estrutura de trabalho baseada em times, com alto grau de autonomia para os funcionários (vide a lista de espera de Diretórios Municipais com pedidos de criação), uma organização enxuta mas com quebra das barreiras organizacionais (hierárquicas) entre os mesmos. Ao invés de soldados seguidores de ordens, a nova organização gerencial enxuta desenvolve funcionários motivados, altamente treinados, que investigam problemas e buscam soluções. Podemos fazer uma analogia com a fala de Fernando Henrique no Roda Viva, em 1991, sobre as vantagens da produção em massa flexível sobre o Taylorismo, onde você dá muito maior responsabilidade ao trabalhador direto e o qualifica mais, aumenta o nível de de competência e capacidade de resolver os problemas locais sem a necessidade de uma cadeia de comando hierarquizada, resultando em ganhos de produtividade incalculáveis.

A desmotivação dos filiados para com o partido NOVO é patente e generalizada, apenas disfarçada pelo ânimo dos incautos recém chegados, ainda não apresentados ao famoso discurso “a porta é serventia da casa”, ao primeiro questionamento. O autoritarismo excessivo e o desdém para com as iniciativas e dedicação voluntárias e a falta de representatividade e de comunhão entre partido e filiados ficou patente e culminou, na reunião mensal do Diretório Paulista em 10 de maio de 2016, na clara dissidência de objetivos entre representantes e representados. Tal a repercussão nacional do acontecido e a empatia dos demais filiados país afora que, em 04 de junho seguinte, ganhava corpo a primeira corrente nacional de filiados do partido, o CONFIA-NOVO. Uma tentativa de aliar as demandas liberais de maior participação decisória, isonomia e representatividade filiada. Mesmo sendo um partido cuja proposta é racionalizar as organizações governamentais para a sociedade como um todo, ou seja, liberal por conveniência -não por ideal-. O NOVO ainda é (ou era) a opção mais palatável em um menu de siglas sócio-democratas / Fabianistas.

“A busca da representatividade e a preservação das liberdades individuais devem ser os principais objetivos de uma reforma política” – João Dionisio Amoêdo (Veja – 20jul16)

Por outro lado, a prepotência demonstrada pelo Diretório Nacional, a sua falta de tato para com os seus voluntários mais engajados (preteridos no processo seletivo por figuras praticamente anônimas aos mais assíduos) e o distanciamento da seleta “casta tecnocrata de gestão” para o “chão de fábrica” é tamanha, que apenas 10% dos presentes no segundo encontro nacional este ano estiveram também no primeiro encontro, em setembro de 2014. O uso despudorado de interpretações maleáveis do próprio estatuto, para impugnar (primeiro na seletiva, depois utilizando-se de funcionários e dirigentes de outros Estados -nenhum carioca-, pois faltou-lhes coragem) a candidatura de um dos fundadores mais capacitados e populares do partido à prefeitura do Rio de Janeiro gerou descrédito generalizado e foi o atestado tácito de que se trata de um partido nanico, com um dono (quase que descaradamente, mas o TSE não deixou) e de futuro incerto.

Não obstante dizimar, uma a uma, todas as oportunidades oferecidas pelo momento único da política nacional, da chance ora perdida de ser um veículo omnibus catalisador da incipiente nebulosa sem forma Liberal-Conservadora (inclusive ancaps) que começa a dar as cartas no Brasil e que definirá o seu rumo nas próximas décadas, resumiu-se à uma pequenez organizacional e acastelada: premiando a subserviência e obediências cegas e punindo a autonomia e lideranças, que poderiam agora, estar guiando o Bonde do Partido NOVO às rédeas da reconstrução política nacional. Contudo, a sua casta gerencial, embevecida pela certeza do (perpétuo) caminho e preservada por sua tacanha autoritária, não enxergou as escancaradas fragilidades – altíssima rotatividade e retenção quase nula (10%) de filiados- e os riscos eminentes da insustentabilidade financeira (principalmente após a proibição de doadores jurídicos). Chegando ao ponto de, mesmo aconselhada, negar-se a ver o óbvio, apenas repetindo vaidosamente que..

“- Se não der certo é porque o projeto não era bom”

 

***

 O Blog 30 Diários, que nunca teve apoio oficial do partido, ao contrário, foi pessoalmente orientado pelo seu Secretário Nacional de Finanças a retirar toda e qualquer menção, logo ou imagem que remetesse ao NOVO (o qual justamente propunha divulgar!), vem a público afirmar que, em virtude de uma profunda decepção e discrepância entre realidade e expectativa, desvincular-se-á do projeto do NOVO. Não deixará contudo, de apoiar o partido ou aos seus candidatos, assim como o CONFIA, os quais sempre terão acesso e liberdade irrestrita na utilização deste veículo midiático.

A nova orientação da plataforma será vinculada à divulgação de conteúdo Liberal (todas as suas vertentes) e apartidário.

Continuaremos contanto com a inestimável colaboração de todos os nossos colunistas e, esperamos enormemente, de todos os nossos leitores, nesta nova e importante etapa deste blog que voz escreve.

 30 Diários

 

7 comentários sobre “Foi-se o Bonde, fica a Liberdade

  1. Excelente! Mais didático impossível! Faço minhas essas palavras do editorial! E concordo com uma possível mudança do nome para “Diário Liberal”, afinal, o “30” já não representa muito bem o que queremos para o nosso país. Valeu!

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  2. Parabéns! Belo texto. Quanto ao livro “Reinventando o Governo”, acho o enquadramento superficial. O Livro trata das experiências bem sucedidas no mundo. Nada a mais. Algumas delas utilizando de melhor gestão com conceitos da iniciativa privada e outras com privatizações e delegação de poder a comunidade. O ideial liberal para ser posto em prática há que criar pontes, superar o legado e suas restrições orçamentárias, jurídicas e culturais, para não ficar no etéreo. Mas sem dúvida, um belo texto que reflete a realidade atual do NOVO.

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  3. Pingback: Almanaque do Partido Novo | 30 Diários

  4. Infelizmente só hoje consegui ler esse belíssimo editorial, e mais ainda fiquei orgulhoso de fazer parte do time deste blog. O Novo teve sim o mérito de juntar muita gente boa; mas contribuiu com a alienação de muita dessa” “gente boa” – que se dispôs a confiar mais uma vez na política e tiveram uma decepção tamanha que, talvez, afastem-se novamente de vez. O Brasil continua precisando de nós, agora mais que nunca. À luta!

    Curtido por 1 pessoa

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