5 Razões para se Criar um Partido Político


Leandro Monteiro - segunda

Frequentemente ouvimos nas ruas a crítica de que o Brasil tem “partidos demais”. Segundo dados oficiais do TSE, são 35 partidos efetivamente registrados, e outros 24 em processo de formação. Há ainda incontáveis proto-partidos, aqueles que vêm sendo gestados por grupos políticos, mas sem ainda o mínimo necessário para serem considerados oficialmente como “partidos em formação” pela Justiça Eleitoral.

O que leva um grupo a buscar a fundação de um novo partido? As razões podem ser as mais diversas, mas separamos cinco que talvez resumam o grosso das motivações, e que geralmente se combinam em algum grau na criação dos partidos.

1. Nenhum partido representa meus ideais

O aspecto ideológico está (ou ao menos deveria estar) certamente presente na criação de qualquer novo partido. A própria ideia de “partido” deriva da representação de uma “parte” da sociedade identificada com certa ideologia política. É verdade que vemos hoje o surgimento de partidos políticos desvinculados de qualquer matriz de filosofia política (vide, por exemplo, o recém fundado “Partido da Mulher Brasileira” e o formando “Partido Nacional Corinthiano”). É a filiação a alguma matriz ideológica que, em teoria, ligará o partido a alguma parte da população e lhe garantirá apoio político, seja em filiações ou em votos.

Contudo, o que se observa no Brasil é que a ligação ideológica da grande maioria dos partidos se limita ao nível do mero discurso. Os partidos, ao se formarem, adotam uma posição ideológica porque “têm que” – prática essa que, como se vê, já começa a ser abandonada -, mas de fato são movidos por interesses que em nada se relacionam com sua cartilha de valores, e não raro agem de forma contrária ao que supostamente defendem.

2. Um partido para chamar de meu

Uma razão comum no Brasil para a criação de um partido político é ter uma máquina partidária para controlar. Se você sair na rua e falar para qualquer pessoa o nome de meia dúzia de partidos, provavelmente ela não vai ter muita dificuldade em falar, espontaneamente, quem é o “dono” de cada um dos partidos mencionados. Tanto políticos de carreira quanto pessoas até então “comuns” ganharam enorme relevância política simplesmente ao criar e controlar seus próprios partidos políticos.

3. Tesouro Direto? Há investimentos melhores

O acesso ao fundo partidário torna o investimento na criação de um novo partido nisso mesmo: um verdadeiro investimento. Os partidos que menos recebem dinheiro estatal para seu financiamento ganham, por ano, cerca de R$ 1 milhão da União. Se, como se afirma geralmente, gasta-se cerca de R$ 5 milhões para um processo de registro, trata-se de um “lucro” de 20% ao ano. O dinheiro é do partido? Sim; mas quem usa o escritório, a secretária, o carro (às vezes até o helicóptero) do partido e direciona e controla os “pagamentos” feitos com o dinheiro do fundo é o dono do partido…

4. Good cop, bad cop

Brastemp e Consul, Sadia e Perdigão, Kopenhagen e Brasil Cacau… Diversas marcas aparentemente concorrentes no mesmo segmento são, na verdade, controladas pelas mesmas empresas. Mantêm a existência de chancelas distintas quer para atingir públicos diferentes, quer mesmo para valorizar um produto ou marca em relação à outra.

Na política, não é incomum – especialmente em época de campanha – multiplicarem-se acusações de que um partido seria “linha auxiliar” de outro. De fato, num país onde, culturalmente, apontar os erros cometidos pelo outro é considerado um ataque, deixar que esse trabalho “menos nobre” seja feito por uma legenda menos expressiva (que obviamente o fará em troca de algum benefício do partido maior, se eleito) é uma estratégia até banal.

Se isso talvez não justifique a criação de uma legenda, certamente ajuda a, no mínimo, garantir sua manutenção.

5. Dividir para conquistar

Essa última motivação me foi apresentada há pouco tempo, e confesso que tive (e talvez ainda tenha) um pouco de resistência em aceitá-la, por parecer um pouco conspiratória demais. Mas, diz o ditado, como em política até boi voa, é uma possibilidade a se considerar.

Pois bem: imaginemos um partido político em ascensão, que represente a ideologia “A”. A ascensão desse partido se deve, no entanto, ao fato de que muitas pessoas que tem a ideologia “B”, que não é bem representada em nenhum outro partido, passaram a apoiar esse partido, já que a ideologia “A” é a menos distante da “B”.

Eu, maquiavélico líder do partido de ideologia “C”, ferrenho opositor das ideologias “A” e “B” e do partido que as representa, convoco um tovarishch, um camarada, e lhe peço para estimular a criação de um partido que represente a ideologia “B” – quem sabe até mesmo participar dessa fundação. Com isso, os votos da oposição são diluídos e o poder do meu partido é relativamente aumentado.

Ou seja…

Que muitos partidos políticos foram e são criados a partir de intenções não das mais virtuosas, isso não deve ser novidade para ninguém. Mas lançar luz sobre algumas possibilidades do porquê cada um deles existe pode nos ajudar a entender melhor o cenário que nos é colocado, especialmente neste momento de eleições.

 

Uma observação não relacionada: esta semana vi alguém falando que o 30 Diários era a “Caras do Novo”. Ri um bocado.

 

*

Leandro Monteiro, advogado e bacharel em Relações Internacionais, ambos pela PUC-SP, e mestre pelo Programa Santiago Dantas (UNESP/UNICAMP/PUC-SP). Atua primordialmente na área do agronegócio. É liberal.

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