Bruno Garschagen: “para o conservadorismo de hoje a defesa das liberdades, incluindo a econômica, já é parte estrutural de seu pensamento”


Bruno Garschagen

Bruno Garschagen

 

Por Luan Sperandio (EPL),

Bruno Garschagen é o autor do best-seller “Pare de Acreditar no Governo – Por que os Brasileiros não Confiam nos Políticos e Amam o Estado” (consulte: bibliografia) pela Editora Record. Ele é graduado em Direito, Mestre em Ciência Política e Relações Internacionais pelo Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa e Universidade de Oxford (visiting student), professor de Ciência Política, tradutor, blogueiro do site do Extra colunista do jornal Gazeta do Povo, podcaster do Instituto Mises Brasil e membro do conselho editorial da MISES: Revista Interdisciplinar de Filosofia, Direito e Economia. No final de semana passado foi homenageado pelo grupo Domingos Martins por sua defesa a liberdade.

Estudantes Pela Liberdade: Em sua obra ‘Pare de Acreditar no Governo’ você fala sobre o “paradoxo de Garschagen”, em que os brasileiros não confiam nos políticos, mas acreditam no governo. Esse fenômeno ocorre em outros países?

Bruno Garschagen: Não num país que conheço bem, como a Inglaterra, mas ocorre em Portugal, muito embora num grau menor do que no Brasil, tanto na desconfiança em relação aos políticos quanto na ideia de que o governo dever ser o grande agente do desenvolvimento social, político e econômico.

EPL: Como acabar com o “paradoxo de Garschagen”?

BG: Não há uma fórmula única para um país com uma mentalidade estatista e, principalmente, com uma cultura política intervencionista. Mas acredito que a nossa diversidade cultural e a nossa capacidade de mudar rapidamente para o que é bom contribuam para essa mudança. Não sou um otimista cultural que acha que podemos convencer toda a sociedade brasileira de que assumir a responsabilidade que nos cabe – retomando a que foi terceirizada para o governo – é o melhor caminho para preservarmos as nossas liberdade e conquistar a prosperidade econômica. Mas se conseguirmos formar e ter pessoas que defendam tais ideias e valores comuns em posições-chave para a reforma necessária veremos alterações importantes na nossa cultura política e na política formal. Se continuarmos a não nos preocupar com a política, os políticos continuarão a nos atrapalhar com suas ideias intervencionistas.

EPL: Se por um lado o atual momento político tem sido benéfico para a difusão das ideias da liberdade, é notório o crescimento de um “conservadorismo” muito reativo e nem sempre propositivo. Por que isso está ocorrendo e como devemos lidar com isso?

BG: Os conservadores que eu acompanho e leio reagem quando devem reagir e são propositivos. Talvez você, como tantos outros, esteja confundindo conservadores com reacionários, imobilistas, tradicionalistas, conservantistas, revolucionários ou moralistas de boteco.

Muitos dos que se dizem conservadores, ou que são apontados como tal, sequer sabem o que é conservadorismo. Desconhecem até mesmo a tradição conservadora brasileira do século XIX e que no século XX teve como grande expoente João Camilo de Oliveira Torres.

Outra confusão que se faz é afirmar-se conservador em alguma coisa e liberal na economia. A agenda de liberdade de mercado no conservadorismo já existia no Império brasileiro e na Inglaterra da época, e foi aprofundada no governo de Margaret Thatcher. No Brasil, em virtude do golpe militar de 1889 que derrubou a Monarquia, isso, obviamente, não foi possível. Ou seja, para o conservadorismo de hoje a defesa das liberdades, incluindo a econômica, já é parte estrutural de seu pensamento.

Por que isso está ocorrendo? Em termos gerais, o que está acontecendo é a descoberta, por um conjunto cada vez maior de pessoas, de novas ideias e ideologias políticas. Isto não é um problema em si, nem no que se refere ao conservadorismo ou ao liberalismo. Acho esse descobrimento mais virtuoso do que o debate e a política que até recentemente gravitava em torno de ideias socialistas e comunistas. Essas descobertas e vinculações ideológicas acabam por oxigenar a sociedade e o debate. Mas, claro, há malucos e idiotas em todo o canto. O desafio é não deixar que estes se tornem a representação de uma ideia e que a convertam numa caricatura a ser ridicularizada. Esse trabalho de depuração, aliás, deve começar a ser feito para que não haja dúvidas ou vinculações equivocadas

EPL – Não faz muito tempo que você se graduou em Direito. Os cursos de Direito no Brasil muitas vezes parecem cursos de “welfare-state”, haja vista que se preocupam muito com princípios e ideias e pouco com os efeitos jurídicos que elas podem provocar. Fala-se em “falhas de mercado”, e ignoram-se falhas governamentais e que elas podem até mesmo agravar os problemas iniciais. Por que isso ocorre aqui no Brasil e em que a Escola Austríaca pode contribuir para melhorar a academia?

BG – Quando eu fiz faculdade de direito (1997-2001), o curso já era pré-vestibular para concurso público. Eu ainda dei sorte porque a maioria dos professores era de profissionais mais velhos (advogados, juízes, promotores), mas alguns docentes mais jovens davam as aulas como se se tratasse de cursinho para concurso (“essa questão caiu na prova para a Polícia Federal de Caxambó, etc.”).

Como mostro no meu livro, o ensino jurídico no Brasil veio com o formato da Universidade de Coimbra, ou seja, um dos grandes objetivos era formar profissionais para servir ao Estado. Com raras exceções, esse é o espírito que ainda norteia os cursos de direito no Brasil. Juntando isso com um ambiente intervencionista criado pelo governo federal que, paralelamente, se apresenta como um empregador sedutor, oferecendo salários iniciais mais altos em várias ocupações e garantias (como estabilidade) que nenhuma empresa poderá oferecer, os cursos de direito acabam reproduzindo essa mentalidade e treinamento.

A Escola Austríaca pode contribuir, assim como um estudo adequado da Ciência Política e da análise econômica do direito, para mostrar aos estudantes e aos profissionais que o direito não é algo isolado que se basta ou se esgota em si mesmo, e quais são as consequências do exercício do direito nas várias esferas da vida em sociedade. O estudo do direito se expandiria virtuosamente se agregasse tais instrumentais teóricos.

EPL: Você integra o corpo docente da pós-graduação em Escola Austríaca do Instituto Mises Brasil. Qual a expectativa do curso e qual será sua função nesse processo?

BG: Além de professor, sou o coordenador de Ciência Política da pós-graduação, um projeto importantíssimo para o trabalho acadêmico do IMB que já estava sendo desenvolvido com cursos, conferências e com a revista MISES.

A procura foi tão espetacular que a primeira turma foi rapidamente fechada e o programa já está em curso. No segundo semestre será aberta uma nova turma e já há lista de espera para uma terceira.

Acredito que o interesse cada vez maior pela Escola Austríaca e a qualidade do corpo docente foram fundamentais para o sucesso da pós até agora.

EPL: Por fim, quais serão seus próximos trabalhos? Podemos aguardar um próximo livro?

BG: Estreei na semana passada o meu blog “Sem mimimi” no site do maior jornal carioca, o Extra. Na segunda, dia 24, estreou a minha coluna semanal na Gazeta do Povo, o maior jornal de Curitiba. E iniciei um trabalho de palestrante no segmento empresarial.

Quanto ao novo livro, pretendo começar a escrevê-lo em maio. O lançamento será em 2017. Mas o tema do livro, por enquanto, é segredo.

Fonte: epl.org.br

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