Karl Marx e o consumidor


Nélio Domingues, NOVO-DF

 

É interessante dar a este texto o título acima porque Karl Marx conhecia e declarava a existência de duas entidades econômicas: o Capitalista (produtor, patrão) e o Proletariado (trabalhador), mas o Consumidor era-lhe desconhecido. A visão que possuía, salpicada pelo conceito de “classe” e “luta de classe”, separava aquelas entidades de tal modo, que construía entre elas uma divergência (luta) irreconciliável: jogo de soma zero, ou, para que um ganhasse, o outro tinha que perder. Não existia na cabeça marxista o ganha-ganha, onde as partes envolvidas ganham ao mesmo tempo.

Karl Marx viveu em outros tempos (05/05/1818 a 14/03/1883): sec. XIX, no início do capitalismo industrial. Nesta época, de forma resumida, três grandes visões coexistiam no quadro político ideológico:

1. o Liberalismo (cuja base teórica veio de Locke e Monstequieu) – que corresponde à
ideologia da nascente burguesia;

2. o socialismo (cuja base teórica veio de Saint-Simon, Fourier e Owen) – que
corresponde à classe operária;

3. o conservadorismo (cuja base teórica veio de Edmund Burke, e postulados básicos de fé, autoridade e tradição) – da decadente classe aristocrática.

Os aglomerados sociais (classes) não eram tão separados e homogêneos assim, como se
cada um estivesse em seu quadrado, bem separadinho e comportado (não muito distante do que é hoje). Existiam interseções e inter-relacionamentos entre si, e também existiam aqueles sem muita definição ideológica: a classe média e a pequena burguesia.

O século XIX deu continuidade às intensas transformações científicas, econômicas e filosóficas do século XVIII, refletindo tudo isto na nova divisão política europeia. Os tempos de vida de Karl Marx correspondiam à fase inicial do capitalismo industrial, época em que o Consumidor não tinha vez, logo, não era visto como entidade econômica, e durante a qual as ações do Capitalista e do Proletariado tinham maior importância.

Karl Marx não viu que o Consumidor é a maior classe, que engloba as outras duas e é
diferente delas, apesar de seus componentes serem os mesmos. O Consumidor pensa e age conforme seus próprios interesses relativos de sobrevivência, lazer, ou desejo. Ele, tanto pode ser oriundo da classe Capitalista, como da Proletária, mas possui características, ações e interesses que são próprios dele mesmo. Portanto, Consumidor, Capitalista e Proletário, enquanto consumidores, possuem em comum as características do primeiro e almejam o que é melhor para si, diminuindo a importância do interesse de seu interlocutor: o consumidor é um egoísta.

Dois séculos depois (Séc. XXI) e muitas transformações científicas e econômicas que
alteraram a cultura humana e a visão de mundo, a entidade econômica Consumidor, que antes nada valia, tem hoje importância fundamental. Em tempos de tecnologias baseadas na internet, nas telecomunicações, nas modernas formas de produção em massa e personalizadas, na cooperação mais intensa entre si, o Consumidor influencia, cada dia com mais força, os rumos do mercado.

Karl Marx, que gostava do termo ditadura, pelo menos poderia ter visto que o Mercado Livre é a ditadura do consumidor.

Nélio Domingues é licenciado em História (UnB/CEUB), engenheiro de software e empresário. Entusiasta do NOVO-DF, tornou-se Secretário Distrital Administrativo desde Set/2015. Tem especial interesse por economia, governança institucional e corporativa, empreendedorismo, política e filosofia.

2 comentários sobre “Karl Marx e o consumidor

  1. Penso q hoje e sempre o consumidor teve participação como classe decisiva, talvez inconscientemente no decorrer da história, mas hoje essa participação é mais consciente e por causa da evolução tecnológica começando a ser em grupos e cada vez maiores e com mais influência.

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    • Não é que o consumidor não fosse importante, era, mas até as teorias da época demonstram que sua importância não era tão grande. Era um contexto diferente. Um capitalismo muito incipiente, as pessoas passavam fome em muitos momentos… A força estava mesmo no fornecedor e no trabalhador, e este ultimo trabalhava muito. Dai as teorias da epoca focarem muitos nestes dois agentes economicos

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