As Três Violências Contra o Estudante de Medicina


dice Florentino - sacrifício humano na cultura asteca. O indivíduo sacrificado no interesse da coletividade.

Códice Florentino – sacrifício humano na cultura asteca. O indivíduo sacrificado no interesse da coletividade.

Por Valdemar Katayama Kjaer,

Observei que, em todas as discussões que precediam a escravização da medicina, tudo se discutia, menos os desejos dos médicos. As pessoas só se preocupavam com o ‘bem-estar’ dos pacientes, sem pensar naqueles que o proporcionavam. A ideia de que os médicos teriam direitos, desejos e opiniões em relação à questão era considerada egoísta e irrelevante. Não cabe a eles opinar, diziam, e sim apenas ‘servir’”.

— Dr. Thomas Hendricks, personagem de Ayn Rand em “A Revolta de Atlas”

O ensino médico brasileiro vem sendo lentamente reformado há cerca de 20 anos porque, segundo alguns integrantes do governo, acadêmicos, entre outros, a educação médica tradicional preparava uma mão de obra que não correspondia às demandas da realidade brasileira ou, mais especificamente, do Sistema Único de Saúde (SUS). Sob esse argumento, foi decidido que a formação profissional precisaria mudar, adequando os novos trabalhadores às finalidades políticas pretendidas, visto que a área da saúde é considerada prioritária para o sucesso do “progressismo”.

A partir desse imperativo, logo o curso médico passou a ter o objetivo de gerar mão de obra para a área de maior necessidade do SUS: a “Atenção Básica em Saúde” (ABS). Este nível da assistência engloba, entre outras coisas, a medicina de família e os postos de saúde. Pretende-se que a ABS resolva os problemas mais simples, comuns e, quando necessário, coordene o fluxo de pacientes para os outros níveis da Atenção – hospitais e centros de diagnóstico ou tratamento especializado.

O raciocínio é, portanto, de que o estudante de medicina deve ser moldado para atender aos interesses do Estado – de preferência, na ABS. Mas o que acontece se ele não tiver inclinação natural pela ABS ou for mais propenso a seguir áreas diferentes da medicina, tais como dermatologia, radiologia, oftalmologia? As discussões sobre o novo curso médico desconsideram a individualidade do aluno e estão decididas a moldar sua identidade. Menospreza-se a individualidade, a vontade e as características, inatas ou desenvolvidas durante a juventude – pontos fortes e fracos -, que tornam cada ser humano singular, único, diferente dos outros em motivos, projetos, ações e potencialidades.

Na civilização ocidental livre, atribui-se à educação o papel de expandir os horizontes do aluno, desenvolver uma autonomia que lhe permita fazer escolhas para a própria vida. Sob esse paradigma, o bem da sociedade decorreria do bem de cada indivíduo, interagindo de maneira ética e livre com os demais. Entretanto, atualmente, a maior parte dos textos em educação médica manifesta o princípio oposto: a “sociedade” (na verdade, o governo) determina o papel do indivíduo perante a coletividade.

É claro que essa intervenção no ensino não poderia ser feita de modo claro e franco, pois, como bem sabem os pensadores gramscianos, os indivíduos livres resistem às investidas dos que procuram controlá-los. Por isso, a reforma tem sido gradual e sustentada por estratagemas retóricos de um grupo ideologicamente alinhado, que valida as ideias uns dos outros e tende a doutrinar os estudantes, visando à expansão da base de apoio e a conquista de novos membros. Sendo assim, os jovens que desejam se realizar na medicina, mantendo a responsabilidade e liberdade do agir ético, devem estar prevenidos a respeito dos seguintes mecanismos, que tentarão invadir-lhes a esfera de soberania e alterar-lhes a percepção da realidade, durante o curso:

  • Sugestionamento ou doutrinação: o futuro médico recebe, durante a graduação, conteúdo teórico e prático que tenta persuadi-lo a aceitar uma ideia ou doutrina. Na educação, algumas disciplinas do curso médico, geralmente vinculadas à saúde coletiva, fazem a doutrinação ideológica para o SUS e a ABS – “SUS é o ideal, você tem de trabalhar na saúde da família, você tem de ser generalista”;
  • Manipulação ou condução: moldar a formação segundo interesses externos ao estudante, escondendo ou reduzindo a exposição de disciplinas ou conteúdos para direcionar suas escolhas, no futuro. Como o currículo prioriza a formação de mão de obra para a ABS e outras áreas tidas como prioritárias, o aluno perde tempo de exposição às especialidades. Como só é possível gostar de algo que se conhece, o aluno corre risco de não reconhecer as próprias aptidões ou os próprios interesses e acaba seguindo um caminho de vida que talvez não tivesse escolhido se soubesse mais das outras opções;
  • Arbítrio ou coerção: é quando se obriga um indivíduo a fazer algo, mesmo contra a vontade. Em 2013, o Ministério da Educação (MEC) propôs o serviço obrigatório na Atenção Básica, para todos os médicos recém-formados. A fórmula adotada foi a bonificação, na seleção de residência médica, dos que se sujeitarem a trabalhar na APS. Quem não ceder simplesmente não tem chance de continuar estudando.

Além desses elementos, que por si só são deploráveis, a manipulação política do currículo médico traz outro efeito devastador para a qualidade da formação: a redução do tempo de ensino nos campos de estágio que desenvolvem saberes e habilidades mais complexos, o hospital-escola e as clínicas especializadas. No seu lugar, os alunos aprendem em locais de vivências mais corriqueiras, tais como postos de saúde e hospitais de assistência sem nível acadêmico, onde a rotina se sobrepõe à preocupação com o pleno desenvolvimento intelectual dos estudantes.

Isso é ruim porque, do ponto de vista didático e epistemológico, considerando aspectos da ciência cognitiva para o aprendizado, o hospital-escola de alta complexidade favorece o estudo mais profundo de especialidades, o que ajuda na formação do conhecimento do corpo humano e suas doenças de um modo mais substancial. Sem informações oriundas das especialidades médicas, não há como construir bons conhecimentos médicos gerais – não há como conhecer o todo sem conhecer as partes. A formação profissional em um ambiente com menos vivências de casos de especialidades ou de alta complexidade pode fazer com que a visão do todo seja simplificada em demasia e até deformada.

Desse modo, o direcionamento do currículo, segundo critérios políticos, ideológicos ou sociológicos, no lugar da organização segundo a estrutura do conhecimento científico, a ética personalista e o respeito à sequência do desenvolvimento cognitivo, pode criar “generalistas” sem preparo e, possivelmente, sem aptidão ou prazer pelo que fazem. O paciente pagará o preço, em recursos financeiros e sofrimento, disso que pode ser considerado um desperdício de capital humano, na formação médica. Investir em ambientes que permitam o desenvolvimento máximo das potencialidades individuais de cada futuro médico pode parecer caro, mas os benefícios que resultam desse gasto são muito maiores, para a economia e a vida dos pacientes, ao longo dos anos. “Nunca é muito pouco o que é muito melhor”: em um mundo ideal, os chamados “médicos de elite”, generalistas e especialistas, seriam regra, não exceção.

O que foi descrito até aqui só poderia acontecer sem a interferência de professores de medicina e representantes dos médicos. Até pouco tempo atrás, a elaboração do currículo era responsabilidade dos profissionais da área, reunidos nas respectivas instituições de ensino ou nas entidades representativas. Entretanto, o discurso sentimentalista do SUS, bem recebido pela emoção, mal interpretado pela razão, persuadiu médicos e professores a permitir que pessoas que conhecem pouco da medicina interferissem na essência dela mesma.

O pretexto da construção do SUS passou a guiar as decisões sobre a prática e o ensino da medicina, feitas de modo cada vez mais centralizado, no governo. A transferência da discussão do currículo do âmbito médico para o âmbito político afasta profissionais e professores das decisões mais importantes sobre o que ensinar e por que ensinar, visto que os objetivos últimos do curso não são mais atribuição dos que vivem e praticam a medicina, mas, sim, de uma intelligentsia que acredita conhecer o bastante para determinar os rumos de toda a sociedade. Decisões políticas passaram a pautar o ensino e a futura prática médica, respaldadas por “especialistas”, ideologicamente alinhados ao governo, chamados para validar as decisões, como Thomas Sowell bem explica.

A organização do novo currículo do curso de medicina vem sendo construída mais em razão da organização do SUS do que em função do interesse que o indivíduo, todo ser humano, tem em relação à ciência e a prática médica em si. No entendimento dos intelectuais que planejam o SUS, o curso de medicina deve levar em consideração o aparato do Estado, os desígnios do governo porque, em teoria, o interesse dos indivíduos insere-se no abstrato “interesse coletivo” – o que não é bem verdade, como a realidade demonstra.

Desse modo, na “nova medicina”, o SUS ocupou a posição axiológica antes cabida à pessoa humana. Basta observar que a enorme quantidade de textos em educação médica e documentos oficiais sobre o tema, especialmente as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de Medicina, para notar como o indivíduo e a medicina propriamente dita passaram a ser secundários – ou mesmo irrelevantes – nas discussões. Parece que o SUS não é apenas um meio de prática médica, mas sim a própria finalidade da medicina.

Entretanto, o SUS é apenas um dos infinitos ambientes que podem ser criados para o agir da medicina, não o sinônimo desse mesmo agir. O ideal do SUS não é o ideal da medicina: eles habitam categorias diferentes. A medicina, enquanto ciência, técnica e atividade interpessoal, não serve à sociedade, instituição, Estado ou qualquer outra abstração coletiva. Ela se destina a atender o problema particular de cada indivíduo, único e sem igual. Um sistema de saúde deve ser o suporte e não o molde do que deve ser feito para cada pessoa atendida.

Como será o futuro da medicina e dos médicos? Quem abraça essa carreira certamente deve estar ciente de seu papel na sociedade, o que não significa que deva aceitar ser prejudicado nesse processo. O bem do paciente também depende do bem do próprio médico, sendo realmente necessário equilibrar os interesses de ambos, pacientes e médicos, porém sem escravizar estes últimos, nem os primeiros, através do poder de Estado.

Muitos autores nos alertaram a respeito da ameaça trazida pelo marxismo, o estatismo coletivista e o populismo contra a liberdade das pessoas, mas poucos expõem as consequências secundárias, também graves, para a ciência, a axiologia das profissões e a formação profissional. Esse artigo é um convite a estudantes de medicina, professores e amantes da liberdade a observarem como a literatura atual em educação médica se baseia no paradigma coletivista-estatista, em detrimento dos aspectos realmente essenciais para a boa prática da medicina e seu ensino: as ciências naturais e a ética personalista. Talvez assim os novos médicos ajudem a sociedade a refletir e evitar a repetição dos recentes equívocos do mundo ocidental, no século XX.

A ditadura perfeita terá as aparências da democracia, uma prisão sem muros na qual os prisioneiros não sonharão com a fuga. Um sistema de escravatura onde, graças ao consumo e ao divertimento, os escravos terão amor à sua escravidão.” — Aldous Huxley

Valdemar Katayama Kjaer é Médico oftalmologista, mestre em ensino em ciências da saúde pela Fundação Universidade Federal de Rondônia. Se considera um liberal-conservador. Cita como algumas de suas influências Abraham Kuyper, Hélio Angotti Neto e Benjamin Wiker.

Fonte: atlantos.com.br

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