Por que eu me tornei coxinha?


Coxinha

Por que eu vou na manifestação hoje – ou por que me tornei coxinha?

Por Aline Menezes,

Sim, eu sou coxinha.  Não uma coxinha qualquer, não uma coxinha modinha, mas uma coxinha que teve sua forma moldada pela vida.  E essa é a história que eu vou partilhar hoje com vocês.

Minha mãe teve quatro filhos e, obviamente, não trabalhava fora.  Nos anos 80, era normal as mulheres ficarem em casa pra cuidar dos filhos.  No auge da crise econômica no final dos anos 90, cansada de nunca ter dinheiro e com os filhos um pouco crescidos, minha mãe decidiu trabalhar por conta.  E pra ganhar a vida, resolveu fazer e vender coxinhas.  Tudo começou de forma simples, com uma plaquinha na porta e pequenas encomendas.  O negócio foi crescendo – minha mãe fazia as melhores coxinhas do mundo – e ela conseguiu comprar um freezer usado para congelar os salgados e facilitar a entrega de grandes encomendas.  E com as coxinhas ela viveu até o fim da sua vida, não ganhava muito, não se tornou uma mega empreendedora, mas tinha orgulho do seu trabalho e era feliz com ele.  Era excelente no que fazia, um genuíno talento das panelas.  E não tinha grandes pretensões, deixava a vida lhe mostrar os caminhos.  Tinha fé, tinha força e tinha coragem.  Era uma grande mulher e deixou muitas saudades.

Apesar de viver entre as coxinhas, eu não era uma coxinha.  Sempre fui adepta da “revolução”, acreditava que o socialismo era o melhor caminho para uma sociedade mais justa.  Aos 10 anos, procurava convencer todas as pessoas que me cercavam que o “Fora Collor” era o único caminho possível.  Fiquei indignada quando meu pai me disse que eu não tinha idade para participar das manifestações da UNE em SP, com os caras pintadas.  Eu queria ir às ruas, eu queria me pintar de verde e amarelo, eu queria fazer parte da História.  Organizei debates acalorados na escola, lia kilos de notícias todos os dias sobre a tomada popular do poder.  E sim, sonhava com um Brasil com oportunidades igualitárias para todos.

Acho que meu pai tinha orgulho de mim.  Ele era sindicalista, militante do PT e tinha uma vasta biblioteca revolucionária em casa.  Além das coxinhas, minha casa era cheia dos Pensadores: Marx, Adorno, Marcuse, Frei Betto e Fernando de Moraes ocupavam as prateleiras da estante dividindo espaço com os discos do Chico, do Caetano, do Geraldo Vandré.  E pra não dizer que não falei das flores era o hino dos almoços de domingo, lembrança do dias que passaram (os quais eu só conhecia dos livros de história) e inspiração para os dias vindouros de um sonho possível e distante de ser presidente do Brasil.

Crescendo em meio a esse cenário, era natural que eu quisesse mudar o mundo.  Mas eu precisava me qualificar, não adiantava somente ficar falando sobre as coisas que todo mundo sabia.  Para ser ouvida, mais que das minhas convicções pessoais, eu precisava de uma formação sistematizada.  E isso me levou, aos 18 anos, a ser aprovada para o curso de Ciências Sociais na USP.  Eu estava na USP, a melhor universidade do Brasil no melhor curso de Ciências Sociais do Brasil e tendo acesso aos professores mais fodas de todos: gente que “lutou” contra a ditadura, pilares da esquerda latino-americana.  E me orgulhava saber que eu estava entre os melhores.  Era uma vitória obtida com muito suor, por um esforço pessoal tremendo daquela garota da periferia da cidade de SP que por toda a sua vida estudou em colégio público.  Esse esforço, porém, não foi solitário.

Meus pais foram essenciais e muitos amigos me ajudaram.  Uma, inclusive, até me emprestou dinheiro para que pagasse minha inscrição no ENEM.  E por causa do ENEM eu tive o dinheiro da inscrição da FUVEST recebido de volta no dia da prova, data em que fui aplaudida por uma sala de desconhecidos porque estava entre os 50 melhores colocados do Estado de SP no ENEM que fizeram escola pública.  E diante de tantas conquistas, pensava eu, a faculdade seria só uma maneira de conquistar, enfim, o mundo mais justo com o qual sonhei por toda a vida.

Iniciei a faculdade e o pulo para a política foi quase instantâneo.  Por causa do curso, uma amiga de longa data do meu pai, me convidou para ser assessora parlamentar de um deputado tucano.  Lá não era o meu lugar, eu tinha que estar do outro lado.  E, um ano depois, eu consegui, enfim, entrar no PT pela porta da frente: eu consegui um emprego no Gabinete da Prefeita Marta Suplicy.  Com 19 anos, eu já estava no centro do poder da cidade de São Paulo, na assessoria da Prefeita.  Era um começo promissor, pensava eu.

Eu conhecia o governo por dentro, trabalhava nos grandes projetos petistas para a cidade.  Realizei o sonho de conhecer o Lula, tirar uma foto com o Presidente.  Me filiei ao Partido, contribuindo mensalmente com o projeto.   Conheci os ministérios em Brasília, conheci gente grande dentro do partido.  Fui trabalhar na periferia, com a bases e ver como o sistema funcionava por baixo, com seu clientelismo sem fim.  Filas de pessoas pedindo dinheiro para pagar a conta de água, para pagar a conta de luz, para oferecer apoio.  E sim, o PT não era especial.  Era um partido como os outros – para o bem e para o mal.

Embora as coisas não fossem tão bonitas como nos meus sonhos, o projeto de igualdade continuava vivo dentro de mim.  E o PT faria isso.  Só precisávamos de tempo para extirpar o câncer da direita do PSDB (sim, o PSDB era da direita pra mim).  A Marta não foi reeleita, mas o Lula seria.  Eu ainda acreditava na capacidade do molusco de lutar contra a corrupção.  Porém, uma coisa apareceu: os problemas que eu via no PT em SP não eram localizados, eram nacionais.  Veio o mensalão e com ele sepultei todas as minhas esperanças da mudança oriunda do governo petista.

E eu tive que me reinventar.  Quem era a Aline fora do sonho petista?  Era alguém que não tinha formação nenhuma em nada além do espectro esquerdista.  Descobri que Marx era uma porcaria e que Bobbio não oferecia nada de extraordinário com as suas teorias. Comecei a ver Gramsci como um teórico importante, dado que ele conseguiu colocar no papel o modus operandi de convencimento utilizado pela esquerda.  E eu, como católica praticante, como cidadã, não poderia mais fazer parte daquele processo nojento.

Meu marido me apresentou a Ayn Rand.  E depois de A Nascente eu nunca mais fui a mesma.  Eu tinha um novo herói: Howard Roark  e pessoas como ele mudavam o mundo – não um sapo barbudo analfabeto e corrupto.  E a Ayn Rand me abriu um novo mundo, muito mais significativo e real.  Um mundo onde as ações ultrapassam os discursos, um mundo onde a liberdade é a essência.  Eu não sou massa, eu não sou parte de um projeto.

Eu sou aquilo que acredito, eu sou aquilo que faço para criar um mundo realmente mais justo, onde as pessoas têm autonomia e responsabilidade e não ficam querendo receber as coisas de mão beijada – como eu não recebi.  Um mundo onde a inveja não seja o motor, mas que pessoas bem sucedidas sejam alvo de admiração e respeito.  E eu não tenho mais a pretensão de mudar o mundo.  Já me basta educar bem os meus filhos – de que adianta amar a humanidade se não se respeita quem está do nosso lado?

Eu me reinventei porque é sempre tempo de escolher o caminho certo.  E daqui a alguns minutos eu estarei no Centro com meus filhos, com o meu marido e com dezenas de amigos que acreditam que mudar é possível.  Que o sonho de liberdade seja maior que os desmandos de um partido, de uma organização intercontinental cujos pilares são a destruição da família, do amor pela pátria e da fé em Deus.  E por amor a essas coisas eu estarei na manifestação hoje.  Não é hora de nos mantermos neutros.  É hora de tomar posição.  Então, eu aqui vos declaro: sou coxinha… não sou elite, não sou opressora, sou filha da minha mãe, uma fazedora de mão cheia de coxinhas que hoje, com certeza, me acompanha onde quer que ela esteja.

Fonte: blogdavaranda.wordpress.com

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