Partido NOVO pode repetir o Efeito Obama


Ser um fenômeno na Internet não é garantia ao Partido NOVO do mesmo sucesso no mundo real. A transposição das virtudes digitais em algo palpável, já para as eleições de 2016 ou mesmo para o longínquo pleito de 2018 é ainda uma tarefa árdua. Os requisitos fundamentais porém, estão postos: massa eleitoral conectada, timing político e um produto autêntico que os conectem.

20 anos após a chegada no país, a Internet faz parte e conecta cerca de 120 milhões de brasileiros (instituto Nielsen Ibope / julho de 2014), entre  acessos frequentes e esporádicos. Segundo a pesquisa, o salto no acesso à rede, até então vinculado aos desktops caseiros das classes média/alta e às lan houses para as classes média/baixa deveu-se, principalmente, à mudança no modo de acesso e do uso que esses usuários fazem da rede.

Evolução do acesso à Intenet no Brasil (Ibope/Google/Data Popular)

Evolução do acesso à Intenet no Brasil (Ibope/Google/Data Popular)

A mudança no perfil do internauta é fenômeno recente, está relacionada à massificação das redes sociais e a facilidade (econômica e logística) dos smartphones. Em pesquisa de 2013, o IBOPE constatou que os eleitores mais jovens, de 16 a 25 anos, permanecem mais de 4 horas diárias na rede, período ainda maior nos finais de semana.

O acesso a rede, feito exclusivamente por celulares, chega a quase 50% na faixa de renda inferior a 1 salário mínimo. É um público que não larga o celular. Estudo recente da Global Web Index apelidou o país de “a nação de second-screeners”, afirmando que 86% dos brasileiros (independente da classe social) usam o smartphone enquanto assistem TV.

Além de conquistar um público multi telas, é preciso manter a sua confiança. Segundo Ben Self, estrategista da campanha vitoriosa de Barack Obama em 2004, alguns princípios são fundamentais nesta empreitada: Falar com regularidade; ser relevante; ser autêntico; ser transparente; eliminar barreiras; aumentar expectativas; fazer feedback instantâneo;  e envolver a paixão para vencer.

A imagem do Partido NOVO na Internet

Em pesquisa de imagem feita nos principais fóruns brasileiros online, o Partido NOVO se sobressai positivamente em praticamente todos eles. Foram analisados os tópicos relacionados ao anúncio da aprovação do NOVO junto ao TSE e todos os comentários subsequentes. Alguns fóruns mais específicos foram excluídos da pesquisa pela ausência de referências ao NOVO (UOL), cuja menção se deu dentro de tópicos relacionados a outros assuntos (Clube do Hardware) ou onde havia apenas um tópico para assuntos gerais e o assunto NOVO ficou esparso demais para acompanhar (HTForum).

Pesquisa de imagem do Partido NOVO no principais fóruns brasileiros (30 Diários, set-dez/2015)

Segundo comentários dos usuários nos principais fóruns brasileiros (30 Diários, set-dez/2015)

Por padrão, logo após o post inicial, surgem os usuários da primeira leva: os que conhecem o partido, os que tem simpatia por ele ou pelos ideais liberais (ou mesmo oposição sistemática ao PT) e também os céticos / oposicionistas. Os primeiros comentários são curtos, não muito profundos, apenas reafirmando as suas posições pessoais.

Na segunda leva de usuários é que aparecem as análises mais profundas e embasadas. Normalmente entram nas questões sociais, fisiológicas e ideológicas. No fórum Adrenaline, por exemplo, a questão sobre desarmamento contaminou a discussão e a desviou o assunto do tópico. No HardMOB, um usuário insistia em discutir a posição do partido em questões sociais, através do canal faleconosco, postando as respostas, que ele chamava de evasivas, no tópico.

A terceira e última fase é o da polarização, a fase do Loop entre um ou mais foristas favoráveis e um forista contrário ao NOVO. Normalmente centrada na definição do liberalismo e no foco do partido na questão econômica, em detrimento da atuação ou na falta de posicionamento deste sobre as questões sociais pertinentes à sua orientação ideológica.

A menor proporção de indecisos no Reddit é explicada pela grande exposição do partido, proporcionada pela participação do Secretário Nacional de Finanças do partido, Marcos Alcântara, em uma ampla seção de perguntas e respostas, promovida pelo fórum.

Com um tópico apenas para comentar o resultado da seção de PeR (perguntas e respostas) com o representante do NOVO, não houve uma polarização, entre prós e contras, mas uma enxurrada de críticas ao desempenho do representante do partido. “Toda a proposta dele é voltada para a economia, sem compromisso nenhum com o social. É de se supor que não queiram afastar o eleitorado conservador”, segundo o forista Wesdy.

De todos os princípios elencados por Ben Self para uma campanha virtual vitoriosa (Falar com regularidade; ser relevante; ser autêntico; ser transparente; eliminar barreiras; aumentar expectativas; fazer feedback instantâneo;  e envolver a paixão para vencer), o NOVO ainda precisa calibrar a maioria. Tem porém, o mais importante, que é a paixão para vencer.

O efeito Obama

A campanha de Barack Obama à presidência dos Estados Unidos em 2004 possuía os requisitos básicos para marcar a história norte-americana como a primeira a ser vencida com a ajuda da Internet. Pela primeira vez naquele país, havia uma massa eleitoral conectada, um ambiente político favorável, desapontado com o governo Bush e surgia um produto autêntico que os conectassem e que representasse a esperança.

“Tínhamos de entender a sua vida, seus planos, ideias, mas principalmente a noção de mudança, esperança”, conta Ralston, o estrategista especializado na campanha online de Obama. E por que mudança e esperança? “Porque é preciso começar com a autenticidade”, explica.

Junta-se a isto o ambiente político favorável e a construção da imagem da mudança, do sonho. “As pessoas querem acreditar que vão estar melhor”, avalia Ralston. A campanha online enfatizou esses aspectos, centrando o foco no candidato que poderia unificar novamente o país, que restaurasse a honestidade, com uma política baseada em verdades e trouxesse novamente a esperança.

Deste modo, definiram os objetivos estratégicos da campanha: – nós somos a mudança, não o adversário; – foco na economia, nós vamos mudá-la; – reafirmação dos votos em Obama, combatendo fortemente os boatos e rumores adversários.

As táticas-chave empregadas na campanha tinham a finalidade de aumentar o mapa do seu eleitorado. Para isso, era necessário avançar sobre novas maneiras de comunicação (Internet) e criar um movimento que despertasse a paixão dos eleitores. Principalmente:

  • Saber o ponto principal;
  • Ser disciplinado e comunicar uma mensagem clara;
  • Construir relacionamentos com eleitores e apoiadores;
  • Utilizar tecnologia e integrar esforços de comunicação.

Construindo o mapa do eleitor

Com uma estratégia assentada em informações sobre o eleitorado, a equipe de comunicação de Obama criou uma verdadeira guerrilha urbana, formada por voluntários locais, pessoas do próprio bairro, que conheciam os seus vizinhos, e que batia de porta em porta para fazer o cadastramento de possíveis eleitores de Obama.

Mas não qualquer porta, diga-se. Com uma estratégia precisa de microtarget, a equipe tinha informações altamente detalhadas sobre o eleitorado. Com elas, escolhia seletivamente em quais portas bater e em quais portas não adiantaria tocar. Fosse um idoso, com posse de armas e muito religioso – provavelmente seria um republicano irrevogável.

Do contrário, se as informações fossem de que, naquela casa, havia uma mulher solteira ou viúva, de origem latina, ligada a algum sindicato e que ainda não estivesse cadastrada na campanha de Obama, aí valia tentar mais um voto. A análise cobria casa a casa, e não a tendência de um bairro inteiro, por exemplo.

Com o mapeamento detalhado eleitorado, feito a partir de diversos cruzamentos de fontes de informações, foi feito um mapa eleitoral de cada região, permitindo à equipe de campanha focar naquelas em que havia maiores chances de vencer. Desta forma, os democratas conseguiram ganhar em Estados como Carolina do Norte, Lousiana e Indiana, onde não desde 1964.

 

Importância dos voluntários

“Em vez de esperar pelo período de 45 dias de campanha televisiva antes das eleições, os brasileiros precisam investir na estratégia do porta em porta. Reunir pessoas que possam ajudar a montar a lista de preferências dos eleitores. Primeiro deve resolver o problema da ausência de um banco de dados sobre o eleitorado – quanto mais robusto ele for, maiores as possibilidades de eficácia. Se partidos investirem tempo e dinheiro nisso, vão ganhar”. – Continua, Peter Giangreco – “Sem os dados dos eleitores, fazer o microtargeting será muito difícil. Vocês devem construir a base de dados. De 0 a 100, classificar quem pode ser persuadido ou não, em cada região

Segundo ele, responsável pela estratégia de marketing direto e microtargeting da campanha presidencial de Barack Obama, os democratas gastaram algo entre US$2 milhões e US$3 milhões para chegar a este nível de detalhamento. Outros US$20 milhões foram gastos apenas com mala direta. Incluindo uma equipe apenas para definição dos alvos.

A Internet foi o meio para criar uma rede de voluntários que trabalhassem em suas comunidades, seus bairros. A intenção não era de convencer o eleitor diretamente mas, engajá-lo em um movimento o qual ele acreditasse. No Google Earth, era possível mostrar a casa da rede de voluntários e também aquelas dos eleitores indecisos. A campanha dos engajados era que eles fossem falar justamente com esses vizinhos indecisos.

Além do toque mais direto, menos dependente das mídias tradicionais como jornais e TV, o relacionamento agora dá-se em uma via de mão dupla, falando diretamente com o eleitor e recebendo o seu feedback. As mídias sociais foram importantes nesta comunicação instantânea em 2004 e atualmente são fundamentais em qualquer campanha em grande escala.

Os mesmos ingredientes que fizeram da campanha de Barack Obama em 2004,  uma realidade vencedora, estão presentes também na realidade brasileira, dez anos depois. Temos uma massa eleitoral conectada, um timing político perfeito e um produto autêntico que conecte os dois. Resta saber se o NOVO saberá unir os pontos e se terá capacidade para reproduzir as lições do Efeito Obama.

 

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