Fim do Bipartidarismo na Espanha


Dois novos partidos alteram o panorama político na Espanha. O Podemos, partido de esquerda fundado em 2014 e o Ciudadanos, partido de centro-direita fundado em 2006.

O Podemos é um sucesso estrondoso nas redes sociais da Espanha. Com apenas quatro meses de criação, obteve 8% dos votos para o Parlamento Europeu e direito a 5 das 54 de suas cadeiras. Sua campanha foi bancada principalmente por financiamento voluntário coletivo, através de crowdfunding.

Seu líder é o professor universitário Pablo Iglesias, um dos maiores críticos do atual modelo econômico europeu. No último domingo (20/12), o Podemos obteve 69 dos 350 assentos do Congresso Espanhol, ficando atrás apenas dos tradicionais PP e PSOE.

Já o Ciudadanos foi fundado em 2006 por Alberto Rivera, um dissidente do conservador PP (Partido Popular). Inicialmente criado para defender o ensino da língua espanhola na Cataluña e contrário à independência desta região da Espanha, acabou por abarcar temas como o livre mercado e sociais, alçando o partido ao quarto lugar no pleito deste domingo, com 40 cadeiras no Congresso.

Riviera sublinhou que o Ciudadanos vai “pensar em todos os espanhóis e não em grupos, vai renovar a forma de fazer política e tratar os espanhóis como adultos”. Continua: “Somos liberais quanto às políticas econômicas (…) e, por outro lado, somos um partido também social-democrata que quer consolidar um estado de bem-estar em que as classes mais desfavorecidas consigam um bom nível de bem-estar social”.

O Blog 30 Diários destaca aos leitores três matérias que bem explicam a nova fase espanhola, inclusive, fazendo o paralelo com o momento atual da política brasileira, comparando o posicionamento ideológico de Podemos e do Ciudadanos aos nacionais Rede Sustentabilidade e Partido Novo.

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O Novo e a Rede podem ser o Ciudadanos e o Podemos do Brasil?

Por Guga Chacra (Estadão),

Podemos e Ciudadanos são dois partidos que praticamente não existiam na Espanha nas eleições de 2011. O país era dividido solidamente entre o PP, de centro-direita, e o PSOE, de centro-esquerda. Escândalos de corrupção e uma profunda crise econômica levaram a protestos ao redor do país. Os manifestantes se organizaram e formaram dois novos partidos. Justamente o Podemos e o Ciudadanos.

Apenas para entender, das 350 cadeiras do Parlamento espanhol, nas eleições de 2011, 186 ficaram com o PP e 110 com o PSOE. Nas eleições deste fim de semana, ninguém conseguiu maioria. O PP, mais votado, terá 123 cadeiras, enquanto o PSOE ficará com apenas 90. Os dois novos partidos, embora ainda minoritários, tiveram um ótimo desempenho – o Podemos, com 69, e o Ciudadanos, com 40. As cadeiras que sobraram ficaram com partidos menores ou regionais.

O Podemos é uma agremiação de esquerda. O Ciudadanos é mais complexo, pois mistura posições de esquerda e de direita, com um pouco de liberalismo econômico, mas também com posturas social-democratas. Seus líderes são jovens. Pablo Iglesias, do Podemos, tem 37 anos. Albert Rivera, do Ciudadanos, tem 36.

O Brasil, desde 1994, é dominado pelo PT e pelo PSDB, que se revezam em coalizões com o PMDB. Há também partidos como o DEM (ex-PFL), o PP e o PSB. Mais recentemente, surgiram dois novos partidos. A Rede e o Novo. Será que eles terão condições de crescer como o Podemos e o Ciudadanos? Em 2011, diziam ser impossível quebrar o bipartidarismo do PP e do PSOE. Mas o Podemos e o Ciudadanos quebraram.

Fonte: internacional.estadao.com.br/blogs/gustavo-chacra/

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Eleições gerais colocam a velha e a nova Espanha frente a frente

Por John Carlin (El País),

Quatro dias, quatro comícios eleitorais, 2.000 quilômetros percorridos. Muitos castelos, muralhas, igrejas, oliveiras; presunto, morcela, porco e vinho. A Espanha, que vai às urnas neste domingo, é um país antigo de tradições antigas – na cultura e nos hábitos políticos. Franco se foi e veio a transição, mas a reverência ao poder, o abuso descarado daqueles que o controlam e o hábito clientelista da população continuam presentes, parece mais a época medieval do que o século XXI.

O aparecimento na corrida eleitoral de dois jovens partidos, Ciudadanos e Podemos, sacode a velha arquitetura. Os espanhóis vão votar divididos entre ficar com seu conservadorismo ancestral ou dar um salto para o desconhecido.

Na segunda-feira estive em Ávila, com o Ciudadanos; na terça-feira com o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) em Badajoz; na quarta-feira com o Podemos em Valladolid; na quinta-feira com o Partido Popular (PP) em Barcelona. Na rádio do carro ouvi a notícia do soco que um jovem de 17 anos deu no primeiro-ministro espanhol e líder do PP, Mariano Rajoy, metáfora selvagem da disputa essencial dessas eleições entre o jovem e o velho.

Pablo Iglesias (Podemos) Albert Rivera (Ciudadanos) Pedro Sanchez (PSOE) e o premiê Mariano Rajoy (PP) AFP

Pablo Iglesias (Podemos), Pedro Sanchez (PSOE), Albert Rivera (Ciudadanos) e Mariano Rajoy (PP) / (foto: AFP)

Ciudadanos: Fila durante 45 minutos para entrar no pequeno teatro da Caja de Ávila; capacidade: 500 pessoas. Um alto-falante colocado em um carro tenta me fazer uma lavagem cerebral com slogans gravados, repetidas vezes: “Os privilégios acabaram; Governo de mãos limpas; Novo projeto; Um país de oportunidades; Esperança; Os privilégios acabaram….”. Música do Coldplay e um homem com ar sereno sobe ao palco. Citando sem confessar ao famoso anúncio da Nike, diz que “o impossível é apenas uma opinião”; que o seu partido propõe “reformas para que a Espanha finalmente entre na modernidade”, que “a esperança vai vencer o medo”. Mas que ninguém se assuste: “O programa eleitoral é factível, a mudança será sensata”.

A linguagem corporal de Rivera não tem a mesma convicção de suas palavras

O líder Albert Rivera, que usa sapatos marrons com cadarços vermelhos, aprofunda a ideia. “Reforma, mas não ruptura; mudança, mas não revolução”. E nos lembra: “A nova política vence a velha”, “Vem a segunda transição”. Rivera é o primo da família que todos nós temos e secretamente invejamos, mas sua linguagem corporal não transmite a mesma convicção de suas palavras. O público grita “Presidente! Presidente!”, mas não está claro se ele mesmo, aos 36 anos, acredita.

PSOE: Um centro de exposições do tamanho de meio campo de futebol, com uma mesa na entrada onde duas mulheres vendem merchandising: ursos, guarda-chuvas, relógios vermelhos. No interior, bandeiras são acenadas ao som do hino triunfal (mas antiquado em relação ao Coldplay) do partido. O volume atinge decibéis que ameaçam colocar a saúde em risco. A produção é mais made for TV do que pensada para os cinco mil e tantos presentes, dos quais muitos conversam entre si durante os discursos, como se fosse tanto um grande encontro de família como um ato político. E, de fato, alguém grita do palco dizendo que fazem parte da “família socialista”, cujo chefe é o apresentador do ato da noite, o lendário Felipe González, o ex-primeiro-ministro a quem a multidão veio ver, mais a alma do partido, ainda hoje, do que seu belo e jovem sucessor Pedro Sánchez.

Felipe González fala como se estivesse ante a um grupo de amigos.

O vovô Gonzalez (“tenho 50 anos de vida política”) fala do palco como se estivesse ante a um grupo de amigos na sala de estar de casa. Exala a sabedoria de um homem que permaneceu no poder durante 14 anos e a astúcia de uma raposa velha que sobreviveu a mil batalhas políticas. Como tal, ataca impiedosamente o perigoso rival do PSOE, Podemos, em seu flanco mais fraco, a associação de seus líderes com o catastrófico Governo chavista da Venezuela, do qual tentam se distanciar. Ao que sugere a expressão de desprezo “o baile de máscaras do Podemos”. A mensagem é clara: o PSOE é digno de confiança; o Podemos, não. O problema para os eleitores indecisos que o veem na televisão é que González não só não compete nas eleições, mas também representa a desdenhada “casta” que o Podemos ataca. Os apoiadores do Podemos criam um ambiente fervoroso, moral e futebolisticamente.

Podemos: Um teatro moderno de madeira de cor clara. Falam três pessoas antes do líder, Pablo Iglesias, todos com aparência rebelde de vinte e poucos anos: cabelo comprido, ou piercing na orelha, ou minissaia. Sempre que se menciona Felipe González, o público (jovem, muitas selfies) vaia, como quando Cristiano Ronaldo toca na bola no Camp Nou. Gritam “Virada! Virada!”, o que reflete uma fé surpreendente nas pesquisas, e cantam A Por Ellos, ¡Oé! O professor Iglesias termina com uma exposição didática e sisuda de sua política econômica (utilizou a palavra “ontológico”), mas a atmosfera gerada por seus apoiadores é fervorosa, moral e futebolisticamente. Romântica também, sempre com um fundo religioso implícito. Vão, como Jesus Cristo, “contra os poderosos” e a favor dos pobres, dos famintos e da igualdade. “Isso transcende a política, é uma atitude perante a vida”, afirma um; “Na luta pela felicidade somos invencíveis”, proclama outro.

Partido Popular: No meio do caminho entre o plasma e o mundo real, Rajoy se apresenta em um salão de estilo Versalles no Hotel Palace (antigo Ritz) de Barcelona. Tapete espesso e sóbrio de cores pastel, grandes lustres de cristal, cortinas pesadas de três metros de altura e um público de acordo com a estética do lugar, na maioria homens vestidos com terno escuro e gravata, sentados em mesas com toalhas que chegam até o chão. É o ambiente natural de Rajoy, ao que parece, apenas 16 horas após o soco pelo qual essa campanha será lembrada para sempre, como se nada tivesse acontecido, sem danos físicos ou emocionais à vista. Ressaltando o sucesso da sua gestão durante os últimos quatro anos, recita uma estatística econômica atrás da outra, em um exercício notável de memória.

No meio do caminho entre o plasma e o mundo real, se apresenta Rajoy.

Quem o apresenta é Jorge Fernández Díaz, que nos prepara para o feito recordando uma anedota pessoal: durante a Copa do Mundo de 1982, Rajoy disse a ele todos os nomes da equipe titular da seleção grega. Fernández Díaz, o ministro do Interior, aproveita a agressão da noite anterior para lembrar ao eleitorado espanhol diante das câmeras de televisão que Rajoy é um líder clássico. “Em um momento como o de ontem, demonstra o que é, tem objetivos nobres, serenidade e temperança”, diz Fernández Díaz. E acrescenta: “Ele ama seu país, a Espanha, e tem uma ideia de Espanha na cabeça e no coração”.

Rajoy representa uma ideia conservadora de uma velha Espanha; o PSOE, uma ideia mais progressista da mesma. A nova Espanha prometida pelo Ciudadanos se construiria com reformas pragmáticas, a que defende o Podemos promete uma vida feliz com base em um princípio moral de igualdade. Muito em breve saberemos quem conquistou os corações e as cabeças dos espanhóis.

Fonte: brasil.elpais.com

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Fim do bipartidarismo abre fase de incerteza na Espanha

Podemos e Ciudadanos abalam estrutura bipartidária e, pela primeira vez desde restauração da democracia, espanhóis vão dormir sem saber nome do chefe de governo após uma eleição.

Apesar de ter vencido as eleições espanholas deste domingo (20/12), o Partido Popular (PP, de centro-direita) ficou longe da maioria que detinha até então no Congresso dos Deputados, em Madri. O segundo lugar coube ao Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE). O PP elegeu 123 deputados e os socialistas, 90.

O PP perdeu assim 63 deputados em relação à eleição de 2011. O PSOE vai ter 19 deputados a menos no Congresso de 350 assentos. Em terceiro lugar ficou o esquerdista e antiausteridade Podemos, que conquistou 69 assentos, seguindo-se a legenda de centro-direita Ciudadanos, com 40 deputados.

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Para os espanhóis, está aberto agora o jogo das possíveis coligações: uma grande coalizão entre conservadores e socialistas, como a liderada pela chanceler federal Angela Merkel na Alemanha? Ou um conglomerado de siglas minoritárias que apoiam uma aliança esquerdista?

O certo é que nenhum dos dois grandes partidos que se alternavam no poder em Madri desde 1978 – com cinco governos conservadores e seis do PSOE – voltará a governar sozinho.

Além disso, nem a nova formação de centro-direita, Ciudadanos, somou votos suficientes para se converter no parceiro natural que o PP precisa para chegar aos necessários 176 assentos, nem uma aliança entre o PSOE e o Podemos alcançaria essa maioria parlamentar.

Também entraram no Congresso a Esquerda Republicana da Catalunha (ERC), com nove eleitos, a Democràcia y Llibertat (oito deputados), e o Partido Nacionalista Basco (seis deputados). Depois vêm a Esquerda Unida (dois deputados), o partido basco EH-Bildu (2 lugares) e a Coligação Canária (um deputado).

Poder dividido

A partir de agora, o poder na Espanha não estará mais divido entre dois, mas entre quatro grandes partidos, e serão necessárias alianças para assegurar a governabilidade de um país que tem pela frente dois grandes desafios: a consolidação do crescimento econômico e a vontade de independência da Catalunha, uma de suas regiões mais ricas.

“É uma verdadeira bagunça”, diz Manuel Villoria, professor de ciências políticas na Universidade Rey Juan Carlos, em Madri, sobre o resultado das urnas. “Essa fragmentação vai trazer grandes dificuldades para a formação de um novo governo.”

Se nenhum pacto chegar a ser concretizado entre os partidos, em maio próximo serão realizadas novas eleições. Analistas acreditam, no entanto, que o governo espanhol, que conseguiu aprovar o orçamento público pouco antes das eleições, continuará funcionando enquanto a crise política estiver em resolução.

PSOE e Podemos

O secretário-geral do PSOE, Pedro Sánchez, de 43 anos, reconheceu que cabe ao atual chefe de governo, Mariano Rajoy, a primeira chance de tentar organizar um governo, já que o PP foi o vencedor das eleições.

Como alternativa, Sánchez disse que os socialistas poderiam se unir num “governo de esquerda”, mas não explicou como ele pretende chegar a uma ampla coalizão, que necessariamente teria que incluir o Podemos, uma organização de esquerda que surgiu dos protestos antiausteridade de 2011 e evoluiu para partido político.

Como, mesmo juntos, PSOE e Podemos não têm a quantidade de assentos necessária para garantir maioria, eles teriam que procurar uma aliança com parceiros regionais menores. Para Villoria, essa não é uma opção viável. “Estou inclinado a dizer que uma grande coalizão de esquerda não duraria muito tempo”, afirmou.

Ainda na noite eleitoral, o líder do Podemos, Pablo Iglesias, 37, anunciou que só apoiaria um partido que concordasse com a reforma constitucional, que incluiria a garantia de que os espanhóis teriam uma residência paga pelo governo se o banco tomassem sua residência por falta de pagamento e o projeto de um referendo nacional sobre qualquer primeiro-ministro que não cumprisse seu programa eleitoral.

Já o líder da legenda Ciudadanos, Albert Rivera, de 36 anos, advertiu que seu grupo vai se abster de votar a favor de qualquer governo do PP ou do PSOE no Congresso.

Em busca de parceiros

Rajoy, de 60 anos, reconheceu que o panorama pós-eleitoral “não será fácil” e que terá de chegar a “entendimentos”, acrescentando que considera a possibilidade de formam um governo de minoria.

“A Espanha necessita de segurança, estabilidade, certeza e confiança”, assegurou Rajoy em discurso na sacada da sede do PP, no centro de Madri. Ele anunciou que, na nova etapa que se inicia, será necessário “dialogar muito e chegar a acordos”.

Rajoy baseou sua campanha quase exclusivamente no êxito de sua gestão econômica, que permitiu à quarta maior economia da zona do euro dispensar um pacote de resgate quase certo em 2012 e se tornar uma das que mais crescem atualmente no bloco europeu.

No entanto, os duros anos de crise e a austeridade imposta pela doutrina europeia, aliados a uma série de escândalos de corrupção envolvendo importantes dirigentes do PP, explicam a diversidade histórica do resultado que penalizou seriamente o partido de centro-direita nas urnas espanholas.

Fonte: dw.com

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