O lado bom (ai!?) da persistência de Dilma no poder


Por Prof. Paulo Moura,

Numa passagem de “O Príncipe”, Maquiavel enuncia uma de suas “leis do poder”, segundo a qual, o poder que se conquista com facilidade, perde-se com facilidade e, vice e versa, o poder que se conquista com dificuldade é muito mais dificilmente retirado das mãos de quem assim o conquistou.

A trajetória do PT no governo do Brasil confirma Maquiavel. Os petistas precisaram de muitos anos e inúmeras derrotas antes de chegarem à Presidência da República. Mas, depois de chegarem têm demonstrado que não será fácil retirá-los de lá. Especialmente, dentro da lei.

Espanta-me que editoriais do Estadão e analistas da qualidade de Cesar Maia (por quem não nutro afinidades políticas), ou dos jornalistas de O Antagonista, incorram no erro elementar de afirmar que Lula estaria louco para remover Dilma do cargo para passar à oposição com o objetivo de livrar-se do desgaste da crise que produziu, com vistas a pavimentar sua volta ao governo em 2018.

O erro fundamental dessas análises consiste em tratar o PT como um partido constitucional, cuja conduta é presidida pelo respeito às leis e às regras do calendário eleitoral. O PT converteu-se numa organização criminosa (não que todos os petistas o sejam) que não pode mais viver fora do Estado. E, uma das razões para isso reside no fato de que sem o controle do Estado Lula e o PT perderiam os recursos e instrumentalidades de que necessitam para corromper seja lá quem for para obstruir os caminhos do Ministério Público Federal, da Polícia Federal e da Justiça na investigação e comprovação de seus crimes.

Nem Lula, nem Dilma, nem o PT revelam intenção de autocrítica ou senso de arrependimento por terem destruído os fundamentos do Plano Real e da economia brasileira e por estarem comprometendo as futuras gerações de brasileiros com seus métodos de gestão econômica e política da nação e as práticas criminosas a que recorrem para sobreviver no poder.

O petismo nos trouxe à beira de um precipício e, diante da opção de frear e recuar, Dilma optou por pisar no acelerador ao empossar Nelson Barbosa no Ministério da Fazenda. Convicta, Dilma quer voltar a pôr em prática e política econômica que Guido Mantega começou a implantar no segundo governo de Lula, e que nos trouxe ao cenário catastrófico atual.

O ex-ministro Joaquim Levy sofreu enorme desgaste de imagem em sua passagem por esse desgoverno. Jamais contou com o aval de Dilma para implantar as medidas que defendeu para tirar o país da crise (das quais discordo em grande parte). Mas, no futuro talvez ele venha a ser reconhecido, não pelo que fez, mas pelo que impediu Dilma de fazer nesse seu primeiro ano do quarto mandato do PT no poder. Agora Dilma está como vira lata no lixão.

Nossa análise tem repetido exaustivamente que há um jogo de ataque e contra-ataque em andamento entre as forças que defendem o governo bolivariano do PT e as forças que a ele se opõem. Arrisco-me a dizer que, no atual contexto, com exceção de um escasso contingente de militantes mentalmente perturbados que seguem o PT tal como fanáticos seguem seitas religiosas, todos os demais setores do sistema político que se opõem à remoção do PT do poder pela via constitucional, o fazem por estarem corrompidos, se não no sentido literal, certamente no sentido moral. O cenário do conflito é claro e cristalino. Desnudou-se um pouco mais após o recente golpe desferido pelo STF em favor de Dilma.

O governo moveu suas peças. Chegou a hora de seus adversários moverem as suas. O povo brasileiro somente tem ao lado de si o juiz Sérgio Moro, os procuradores e delegados da Lava Jato, Zelotes e Acrônimo e o ministro Gilmar Mendes. Eventualmente, mais alguns juízes de outras instâncias ainda não contaminados pelo bolivarianismo corruptor. Seria injustiça não reconhecer que temos aliados também no meio político, mas se formos excluir da lista aqueles que se alinham contra o PT e estão com o povo nas ruas desde o início das manifestações e não por mero interesse no poder, talvez não reste mais do que uma dúzia de líderes dignos dessa definição.

A Nação está podre; doente; ferida de morte! Caminhamos para uma situação similar ou pior do que aquela que vive o povo venezuelano. Não escrevo essas linhas para semear o pavor entre aqueles que me leem, mas sim, por acreditar que, infelizmente, essa é uma projeção realista do futuro para o qual nos encaminhamos se não formos capazes de remover o PT do poder pela via pacífica e constitucional, que é a única aceitável para quem acredita na democracia como a melhor forma de regulação política da vida em sociedade.

Há um lado bom nisso? Talvez.

Se a lei do poder enunciada por Maquiavel e referida nos primeiros parágrafos desse artigo tem validade, e Maquiavel não se tornou clássico por acaso, então é razoável supor que, quanto mais o PT resistir no governo; quanto mais o PT dificultar a devolução do poder ao povo e em devolver à nação seu direito a viver sob liberdade e democracia; mais difícil e demorada será a volta da esquerda ao poder após a superação dessa experiência traumática.

As nações guardam características que se podem comparar às das pessoas. Assim como cada um de nós é resultado de uma combinação entre herança genética e experiências vividas, podemos afirmar que as nações possuem uma espécie de “personalidade” que resulta de uma combinação entre suas matrizes genéticas (experiências fundacionais) e as influências recebidas pelos acontecimentos de suas histórias. Assim, também, moldam-se as “personalidades” das nações.

Pergunta: Em que situações indivíduos reavaliam suas vidas e decidem mudar radicalmente seus valores e suas maneiras de encarar a realidade decidindo mudar radicalmente hábitos, costumes e modo de vida?

Resposta: Quando experimentam profundos traumas, tais como a proximidade da morte, doenças graves, perdas traumáticas de entes queridos.

Com os povos não é diferente.

Os EUA (guerra da secessão); o Japão (Hiroshima e Nagasaki); a Alemanha (duas derrotas em guerras mundiais e hiperinflação entre elas) e Coréia do Sul (guerra contra o comunismo), são apenas alguns exemplos de povos que decolaram em direção à liberdade e democracia e a altos índices de qualidade de vida que experimentam, após experiências traumáticas. (Grato ao meu mestre Francisco Ferraz por esse aprendizado.)

O Brasil, “gigante eternamente deitado em berço esplêndido ao som do mar e à luz do céu profundo”, predestinado à riqueza e ao desenvolvimento porque “Deus é brasileiro”, é um empreendimento estatal. Aqui, ao contrário das demais nações do mundo, o Estado foi fundado antes da existência da sociedade e do mercado. Nossa cultura política dominante vive da ilusão de que a riqueza é algo que se tira da natureza, do governo e dos outros, e não, que resulta do trabalho e do empreendedorismo das pessoas. Graças ao PT, talvez, o povo brasileiro esteja prestes a perder essa ilusão. O dinheiro “dos outros”, acabou.

Vai doer? Vai! Tanto mais quanto mais o PT resistir no poder. Basta acompanhar o que o jornalismo revela sobre a Venezuela para saber o que nos espera. Repito, não tenho a intenção de aterrorizar ninguém. Quem me lê sabe que minhas análises são posicionadas. Cometo acertos e erros como qualquer um que se dispõe ao risco de projetar cenários. Se estou correndo o risco dessas afirmações, tenham certeza, é porque creio que esse é um cenário plausível para nosso médio prazo.

Se não estou errado e se há um lado bom nisso tudo, está no fato de que a esquerda amargará um longo ostracismo após provocar esse trauma no povo brasileiro. Que Deus nos proteja.

Fonte: professorpaulomoura.com.br

 

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