Novos partidos chegam ao cenário político prometendo bandeiras mais claras


Por Paulo Germano,

Rede, Novo e PMB se agregam à sopa de letrinhas eleitoral brasileira e abrem a questão: em um país com 35 legendas, serão uma novidade de fato ou o tempo e as alianças carnavalescas os farão cair na vala comum?

São 35 partidos brasileiros, a maioria sem programas, bandeiras nem ideais e é no meio dessa miscelânea que três legendas nascem com uma promessa de nova conduta. Não há como saber, claro, se tanta pureza resistirá à primeira aliança para compor um governo, mas a curta trajetória do trio já revela inovações.

O último partido que surgiu com vitalidade semelhante à dessas novas siglas foi o PSOL (há 10 anos) e, ainda assim, era uma espécie de atualização do PT – avalia o cientista político Jairo Nicolau, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Com registros aprovados no fim do mês passado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a Rede Sustentabilidade, o Partido Novo e o Partido da Mulher Brasileira têm premissas ideológicas palpáveis, embora distintas: o primeiro prega o ambientalismo e a democracia colaborativa, o segundo é liberal e defende o Estado mínimo, o terceiro é centrado na mulher mas rejeita o aborto. Detalharemos em seguida essas bandeiras. Antes, é preciso lembrar rapidamente o que a sociedade viu nos últimos anos.

“Nem de direita, nem de esquerda, nem de centro” era como o então prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, definia em 2011 o partido que recém fundara, o PSD. Na prática, servia para abrigar políticos da oposição que queriam migrar para o governo de Dilma Rousseff sem perder seus mandatos. Mais tarde, viriam o PROS e o Solidariedade para receber gente de todo lado.

– Foram siglas criadas para aumentar o cacife dos filiados no presidencialismo de coalizão. A mensagem ideológica sempre foi mais imprecisa – diz João Feres Júnior, professor de Ciência Política da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).
Já os novos partidos, prossegue Feres, vêm justamente a reboque do pessimismo que anuviou a política nesses anos para cá. Além da crise de representatividade dos partidos tradicionais – um fenômeno mundial –, os sucessivos casos de corrupção no Brasil estimularam a formação de organizações com conceitos, ao menos na teoria, mais alinhados ao momento atual. O que para alguns especialistas é bom; para outros, nem tanto.

– Vejo com ótimos olhos: duas dessas siglas, a Rede e o Partido Novo, chegam com uma proposta de comunicação diferente da tradicional, que era muito centrada na militância partidária presencial – analisa o cientista político Jairo Nicolau, da UFRJ. – Os atuais partidos envelheceram, se acomodaram com os recursos que recebem do Estado. Isso gerou uma absoluta incapacidade de se comunicar com a sociedade.

De fato, o Partido Novo é um fenômeno nas redes sociais. São impressionantes 928 mil seguidores no Facebook – para se ter uma ideia, o PT, com sua imensa exposição nas eleições e na TV, tem 958 mil. O próprio presidente nacional do Novo, o administrador carioca João Dionísio Amoêdo, 52 anos, diz responder pessoalmente às centenas de comentários da página, com a ajuda de dois assessores.

Apontado como o primeiro partido liberal do Brasil – o que inclui apoio às liberdades individuais, como a união homoafetiva –, o Novo cresceu na esteira das manifestações pelo impeachment de Dilma Rousseff. A sigla prega uma drástica redução da carga tributária e, para que isso seja possível, defende um encolhimento do Estado ao patamar mínimo.

– O Estado deveria atuar apenas nas áreas essenciais: saúde, educação e segurança. E, para atingir maior eficiência nesses setores, não faz sentido administrar bancos, companhia de petróleo, correio e posto de gasolina – afirma João Dionísio Amoêdo, ex-membro do Conselho de Administração do Itaú-BBA, um entusiasta da privatização de empresas estatais.

Desde o início, o Partido Novo se colocou como legenda que nascia “sem políticos”, formada apenas por “cidadãos comuns”. O cientista político João Feres Júnior, da Uerj, lamenta que haja uma mensagem, segundo ele, antipolítica nos três partidos recém-fundados:

– Ora, não se pode fazer política sem políticos, isso é um estelionato. Todas essas siglas se assentam muito na honestidade, na luta contra a corrupção, nessa quase demonização da política.

Coordenadora do Grupo de Pesquisa Opinião Pública da Universidade Federal de Minas Gerais, a professora Helcimara Telles faz coro.

– O que a Rede faz é muito grave: rejeita qualquer menção a “partido” no próprio nome. Nessa atual crise de representação, o que precisamos é requalificar a importância dos partidos, e não negá-la. Uma democracia sem partidos não existe – critica Helcimara.

Pois o coordenador de Organização da Rede, o cearense Pedro Ivo Batista, confirma que a palavra “partido” não é lá muito benquista entre os militantes da agremiação. Segundo ele, a Rede é um partido só juridicamente – e só  porque a lei obriga que seja.

– Somos uma outra estrutura de organização política, mais horizontal, mais próxima da sociedade, sem centralismo nas decisões. – afirma Batista, amigo da estrela maior da Rede, a ex-senadora e ex-ministra Marina Silva, que em 2018 deverá concorrer à Presidência pela legenda que fundou.

Dentro de um mês, a Rede deve lançar sua plataforma online, na qual todos os filiados da sigla poderão debater, opinar e votar as deliberações do partido em tempo real, em todos os Estados do país. A ferramenta foi inspirada nos métodos de discussão do Podemos, movimento de esquerda que emergiu das manifestações de 2011, na Espanha, e virou um partido com cinco deputados no Parlamento Europeu. Outra ferramenta digital, já batizada de Faz, será aberta pela Rede para a população em geral: qualquer pessoa que tiver uma campanha alinhada aos valores da sigla – por exemplo, alertando para o abandono de animais à beira de estradas – poderá impulsionar sua causa entre os usuários da plataforma.

– Seremos um instrumento de aglutinação das reivindicações sociais da cidadania. Não temos a pretensão dos partidos tradicionais de dirigir as massas, mas de apoiar as lutas – promete Pedro Ivo Batista.

Com a ideia de oferecer uma resposta concreta à crise ambiental planetária, defendendo o uso de fontes renováveis em todas as áreas da economia, a Rede tem recebido quadros que vêm do PSOL (Randolfe Rodrigues-AP), passando pelo PT (Alessandro Molon-RJ), pelo PC do B (João Derly-RS e Aliel Machado-PR), pelo PROS (Miro Teixeira-RJ), e até pelo PPS (Eliziane Gama-MA). Mas o partido negou na semana passada a filiação do ex-deputado Walter Brito Neto por ser contrário à união homoafetiva.

O casamento entre pessoas do mesmo sexo é aceito pelo Partido da Mulher Brasileira (PMB) – a controvérsia é sua resistência à descriminalização do aborto, bandeira comum entre movimentos sociais liderados por mulheres. Presidida por Suêd Haidar Nogueira, que já militou no PT do B e no PDT, a legenda é “feminina, não feminista” e pretende ampliar a representação das mulheres no Congresso, que hoje não passa de 10%. Algumas coisas, no entanto, não ficam bem claras e ecoam discursos de agremiações tradicionais:

– Somos de centro-esquerda, com posicionamento de centro entre o capitalismo e o socialismo, com tendência maior ao socialismo. Temos que tirar o que foi bom no capitalismo, o que foi bom na esquerda e na direita. O que não foi, vamos tentar mudar – tenta explicar Suêd, dizendo que ainda é difícil detalhar as políticas de valorização da mulher que o partido adotará: essas diretrizes, segundo ela, serão definidas na primeira convenção da sigla, marcada para este fim de semana.

– Mulheres que lutam contra a legalização do aborto lutam contra as mulheres – afirma a filósofa Marcia Tiburi, idealizadora do #partidA, um partido feminista debatido em movimentos sociais país afora.

De qualquer forma, é inegável que propósitos – uns mais, outros menos – os três partidos têm.

– Minha dúvida é o quanto serão capazes de inovar dentro das regras do jogo. Não há como responder hoje – diz o professor de Ciência Política Wagner de Melo Romão, da Unicamp.

Fonte: zh.clicrbs.com.br

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