Entender para bem debater: Mercado financeiro e a Mercadofobia


Ótimo texto de Arthur Bichmacher,

Precisamos falar sobre a mercadofobia.

Enquanto todos opinam sobre tudo e tabus seculares são contestados, uma minoria segue sofrendo preconceito de todos os lados.

Era um feriado de tempo feio e resolvi dar uma volta no fim da tarde, simplesmente para sair de casa. Pegar um ar, distrair a cabeça.

Pouco menos de um quilômetro de caminhada e cruzo com um agradável casal de amigos, na verdade pais de um amigo de infância, e começa aquela conversa de como vão as coisas.

Ah legal, mercado financeiro né?

Comento meio timidamente que estou trabalhando no mercado financeiro, já esperando aquela típica reação, de tentar manter a simpatia sem conseguir esconder uma nota negativa de reprovação ou julgamento, mas jamais um sorriso realmente sincero. Não que eu deseje admiração em especial, mas nunca vi franzirem a testa quando alguém diz que é jornalista ou veterinário.

Tentei desviar sutilmente o assunto para evitar o desconforto habitual, comentando que a empresa mudou recentemente para um escritório bem perto de casa, é ótimo.

Mas os comentários involuntariamente depreciativos sempre vêm.

“É, mas 12 horas por dia, não dá pra aproveitar nada, né?” E seguem com os clássicos, “tá certo, resolveu ir pelo dinheiro”, até citar amigavelmente como é curioso que “o mercado financeiro ganha dinheiro sem produzir nada”.

Respondi com o máximo de simpatia, sem intenção de me alongar ou efetivamente convencer alguém de alguma coisa. Veja bem, o casal, como a maioria dos interlocutores com que já tive essa mesma conversa, são pessoas absolutamente gentis, sem a mínima intenção de me alfinetar. Eu mesmo já pensei de forma semelhante no passado e na época não via muito o que contestar quando um professor da UFRJ resolvia discursar sobre o tema, com essa mesma visão. Parecia fazer algum sentido, ainda mais quando a sua principal fonte sobre o assunto é Hollywood.

Pelo dinheiro!

Mas no caminho de volta, fiquei refletindo sobre essa situação tão irritantemente recorrente.

Eu não roubo ninguém. Não engano ninguém. Não mato, não exploro. Nem sequer tento vender nada pra ninguém. Trabalho cercado por pessoas das mais íntegras que conheço, numa atividade em que nada é tão sagrado quanto reputação. Então por que toda vez que meu trabalho vem à tona, as pessoas reagem como se eu traficasse órgãos?

Por que o mundo, e em especial o brasileiro, tem uma visão tão convicta do mercado financeiro como uma entidade maligna de especuladores desonestos que ganham a vida enganando velhinhas inocentes?

Ignorância por desconhecimento

Desconfio de uma série de motivos culturais, sociais, ideológicos, etc…, além da própria televisão. Mas a essência de tudo é ignorância. Em seu sentido mais puro, de desconhecer.

E uma opinião baseada em ignorância é a própria definição de preconceito.

Resolvi escrever essas linhas para colocar da forma mais didática-para-leigos possível, o que é de fato o mercado, e cada um tire a sua própria conclusão. Não tenho nada para esconder.

No mercado financeiro se ganha dinheiro sem produzir nada?

Nunca vi um médico ser questionado sobre o que ele produz e, no entanto, todos parecem concordar com a importância de seu trabalho. O mesmo vale para as professoras de escola, os advogados e os personal trainers, mas ninguém implica com eles.

Os médicos ganham dinheiro sem produzir nada?

 

As pessoas são perfeitamente capazes de aceitar profissões e setores que “não produzem nada”, porque sabem muito bem que isso não é verdade. Essas atividades simplesmente têm produtos intangíveis: o diagnóstico de uma doença, a defesa de um caso, a orientação de jovens na busca por conhecimento, ou de um estilo de vida mais saudável.

A implicância com o mercado não é porque ele “não produz nada”. É porque pouca gente realmente entende algo sobre ele.

E o que produz o mercado financeiro?

Super simplificando, assim como o médico e o advogado, os principais agentes do mercado financeiro têm um produto intangível: a preservação e multiplicação de capital.

Ao contrário do que pode parecer, não tem nada de intrinsecamente ganancioso nisso. Num país em que o governo insiste em gastar mais do que arrecada, a conta que não fecha com impostos se ajusta por meio da inflação.

Você pode aprender um pouco mais sobre inflação com o Tio Patinhas, mas a consequência bem prática para o seu dia-a-dia é que, se você não fizer nada para “preservar seu capital”, seu dinheiro amanhã vai comprar menos pão do que compra hoje. 

Há quem tente encarar esse desafio de preservar seu capital sozinho, assim como há quem tente se medicar sozinho. Mas não é nada trivial e há tempos que a poupança não dá conta.

E agora quem poderá nos ajudar?

Fundos de investimento

Da necessidade de preservar o poder de compra do seu dinheiro surge uma indústria, hoje extremamente competitiva, de especialistas em decisões de investimentos. Seu trabalho é administrar os recursos de todos os não-especialistas, por meio de fundos, buscando oportunidades de multiplicá-los.

Se suas estratégias de investimento dão bons retornos, ficam com uma parte desse retorno. Se dão errado uma vez, recebem apenas uma taxa de administração. E se continuam dando errado por muito tempo, seus clientes vão embora para outro fundo, com uma performance melhor, e não sobra mais taxa nenhuma para receber. Lembra da importância da reputação?

Os fundos atendem tanto as pessoas físicas, quanto bancos, empresas, ONGs e fundos de pensão que cuidam da aposentadoria de pessoas físicas. De uma maneira ou de outra, é bem provável que seu dinheiro acabe chegando nos fundos direta ou indiretamente. Mas isso é uma coisa boa porque significa que ele será administrado por pessoas cujo próprio salário depende do rendimento que vão conseguir para ele.

Ok, mas para onde vai esse dinheiro?

Todas as empresas precisam do mercado para obter recursos e crescer

Aí que entra a parte mais interessante, e a própria razão para o mercado existir.

Numa galáxia não muito distante de onde esses especialistas de calça cáqui discutem planilhas gigantescas e powerpoints sem formatação, empresas grandes e pequenas produzem todo tipo de coisa da economia real que você não consegue viver sem. Roupas, petróleo, comida, fármacia, seguros, você que manda.

Sabe o que todas elas têm em comum? Precisam de dinheiro para crescer.

E crescer significa gerar mais empregos, aumentar capacidade, atender mais clientes e também gerar um retorno financeiro para seus donos.

Para levar seus planos adiante, essas empresas trazem seus projetos ao mercado e, em processos que lembram um pouco um leilão, levantam recursos para fazê-los acontecer pelo menor custo que o mercado estiver disposto a pagar.

Não cabe aqui explicar os detalhes desse processo, mas há 3 pontos chave para entender:

  1. O mercado financeiro existe para conectar pessoas que querem poupar a empresas/instituições que querem crescer.
  2. Quanto mais desenvolvido for o mercado financeiro local, mais fácil e barato é para as empresas tirarem seus projetos do papel, com todas as consequências positivas disso: mais empregos, mais produtos, mais concorrência, etc…
  3. O objetivo dos investidores que aplicam o dinheiro dos poupadores é encontrar as oportunidades de investimento com maior retorno e menor risco e, para isso, têm que competir com todos os outros investidores. Por causa dessa competição, as boas empresas com bons projetos acabam sendo mais disputadas e conseguem captar mais barato que as más empresas com projetos arriscados. É claro que nem sempre os investidores acertam e essas condições variam no tempo. Mas é um mecanismo independente que acaba levando a preços com que os dois lados ficam satisfeitos.

Tomei o caso das empresas pois é a área do mercado com que sou mais familiarizado, mas o mesmo vale para governos quando emitem títulos de dívida, fundos imobiliários, entre outras modalidades de investimento.

O princípio é o mesmo: o mercado existe para ligar a poupança de pessoas que querem preservar seu capital a instituições que precisam de dinheiro para investir em projetos concretos, a um preço que satisfaça ambos os lados.

(Parênteses do Mercado Secundário: quem chegou até aqui, mas ainda está com um pé atrás, poderia argumentar que isso só vale no mercado primário, em que o dinheiro investido flui diretamente do investidor para a empresa/instituição, mas não no mercado secundário, em que o dinheiro flui de investidor para investidor. Acontece que o mercado primário só faz sentido a ponto de oferecer custos competitivos, se houver um mercado secundário para que o investidor possa revender os ativos (como ações ou títulos) comprados no mercado primário, quando assim quiser. Se o investidor não pudesse revender seus ativos se eventualmente mudasse de ideia sobre o risco do investimento, exigiria um preço muito mais alto no primeiro momento, tornando muitos projetos inviáveis. São as frequentes interações no mercado secundário que fazem os preços dos ativos variarem. Graças a isso, a própria empresa que melhora ao longo do tempo, pode captar novamente a um custo mais barato, ou até recomprar suas ações/títulos se considerá-las baratas.)

Ah, mas e a especulação?

Mesmo que você esteja começando a desconfiar da possibilidade de que talvez o mercado financeiro esteja mais preocupado em permitir que projetos do interesse da sociedade se tornem viáveis, do que em explorar pessoas indefesas, uma vozinha da sua professora de geografia ainda deve estar ecoando na sua cabeça: “é tudo especulação!”

É tudo especulação!

Especulação existe. Mas supor que o trabalho de tanta gente, nada limitada, não passa de uma loteria sofisticada, é no mínimo pretensioso, para não dizer ofensivo.

Benjamin Graham, autor do livro “O Investidor Inteligente”, a bíblia que inspirou Warren Buffett a entrar no mundo dos investimentos, gastou um capítulo inteiro explicando a diferença entre investir e especular.

Em bom português e poucas palavras, a conclusão seria basicamente essa: especular é investir sem saber o que está fazendo. Investir de verdade envolve entender muito bem onde se está pisando, com que riscos está lidando, que retorno poderia obter e, eu ainda agregaria, o que leva você a acreditar que encontrou uma oportunidade que o resto do mercado não está enxergando.

Dá um trabalho desgraçado e explica por que seus amigos do mercado financeiro costumam ter olheiras.

Mas se você jogar uma moeda para o alto e apostar todo seu patrimônio no lado que vai cair para cima, tem 50% de chance de ficar duas vezes mais rico. E embora o mercado não tenha sido feito para isso, também é um ótimo lugar para brincar assim — quando você investe sem saber o que está fazendo (especulando), é como se tivesse 50% de chance de ganhar ou perder.

Mas como no caso da moeda, se você continuar especulando sem parar, alguma hora acabará saindo com menos que começou, ou até perdendo tudo, como num cassino.

É por isso que, no longo prazo, são os investidores que tomam decisões embasadas que conseguem sobreviver. Eles também cometem erros e muitas vezes tomam decisões ruins. Mas embora o mercado tenha seus momentos de irracionalidade, por ser tão diretamente ligado às empresas e instituições que tem um pé bem preso ao mundo real e o utilizam para captar recursos para projetos concretos, mais cedo ou mais tarde ele volta a se ajustar para refletir a realidade.

É nessa hora que os investidores sérios, que tratam o mercado como ele realmente é, obtêm os retornos que justificam seu trabalho.


Espero ter conseguido agregar alguma coisa e reduzir um pouco do estigma em torno desse setor, que nada mais é do que um dos principais pilares do desenvolvimento que conhecemos hoje.

Como qualquer setor, o mercado também tem seus casos de fraudes, de excessos, de erros. Mas para cada filme exaltando seu lado negro, há milhares de pessoas íntegras, trabalhadoras, dando seu máximo para gerar valor para seus clientes e direcionar seus investimentos para os melhores projetos disponíveis, com tanto estudo que mataria qualquer playboy viciado de tédio.

Se você valoriza a comida no seu prato, a gasolina no seu carro, o remédio na sua gaveta, o Facebook no seu iPhone, não se esqueça que nada disso jamais seria acessível a tantas pessoas no mundo, se não houvesse um mecanismo tão complexo e fascinante como o mercado, para ligar a poupança de milhões de pessoas a empreendedores que satisfazem as necessidades de todo tipo de consumidor e geram empregos em todo tipo de indústria.

Não se esqueça que para ter tanta discussão hoje em dia sobre desigualdade e distribuição da riqueza, é porque tem gente trabalhando dia e noite para criar e multiplicar essa riqueza.

E não se esqueça que a riqueza só se multiplica quando alguém resolve arriscá-la, confiando em terceiros para investi-la em projetos incertos, na esperança que deem certo e que tragam retornos positivos, tanto para a sociedade, quanto para quem teve a coragem de arriscar.

Da próxima vez que ouvir alguém dizer que o mercado ganha dinheiro sem produzir nada…

Pergunte o que a pessoa acha dos políticos.

Fonte: medium.com/@arthurbik/

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